Quando novos e imaturos, é comum darmos um crédito indevido à coisas bobas como a “caneta da prova”, para tirar boas notas ou a “blusa da sorte”, com a qual se consegue, sempre, conquistar uma garota... Essas superstições são ruins, pois acabam fazendo do sujeito das ações, alguém desimportante.
Seria impossível tirar boas notas em cálculo, sem sequer conhecer a matéria, mesmo portando a tal caneta. Da mesma forma, aquela menina que nunca te deu bola, não vai mudar de opinião, só porque você está com a tal blusa, que sempre funcionou com aquele amigo, que te emprestou para a ocasião.
Ainda que houvesse algo capaz de tais realizações, vale lembrar que estes objetos precisariam da presença de alguém em especial, para que a mágica acontecesse, ou então, nada feito. Apenas “a pessoa certa” conseguiria tirar a espada da pedra, devido às suas virtudes e dignidade. Formando um par amalgamado.
Dar o crédito de conquistas à objetos, nos afasta do mérito e, também, de nossa responsabilidade, dando um vulto enorme ao acaso. Dessa maneira, é mais construtivo termos na cabeça esta ideia de complementariedade, na qual os “poderes” de tal objeto, dependem de alguém com quem eles se combinam.
Para a realização de qualquer trabalho, a ferramenta boa e correta é de extrema importância e está diretamente ligada a bons resultados. Porém, é preciso ter cuidado pra não deixar de agir, se perdendo na busca por condições idealizadas. Tendemos a queimar grande parte de nossa energia e motivação com o que não importa.
Parte do “som” de um músico, realmente, tem relação com seu instrumento, porém, a partir de um certo nível, as diferenças técnicas passam a ser cada vez mais sutis e, para a maioria, é impossível perceber. Quando percebidas, podem ainda, não ser apreciadas, dependendo de cada gosto musical.
Em momentos de grande pressão, tocar num instrumento que estamos habituados, pode trazer certa tranquilidade. Por este motivo, só percebemos que nosso instrumento é ruim, depois de tocar em um bom e voltarmos a tocar nele. Assim, como se deve ter cuidado para não ficar engessado, em um instrumento ruim, é preciso ter cuidado para não ficar numa eterna busca pelo inatingível.
Um instrumento caríssimo, “que toca sozinho”, depois de ser comprado, perde a graça e se torna, apenas, um instrumento, com suas características reais, seus prós e contras. No entanto, aquele que ainda não temos, manterá sempre seu status mítico, já que o desejo torna essa busca interminável.
Alguns instrumentos são, de verdade, muito bons, outros, têm muita fama, por terem sido usados por artistas consagrados ou em registros históricos. O fato é que, na grande maioria das vezes, um modelo não funciona bem na mão de todos os que o adquirem. Porque cada um tem seu tamanho, jeito de tocar, pegada... E vai render mais com o instrumento que combinar melhor consigo.
Existem casos de artistas ruins que se beneficiaram com a tecnologia, bem como de artistas fantásticos, que usam métodos e ferramentas inusitadas. Tais fatos incríveis, de superação e capacidade de aproveitar as oportunidades do seu tempo, criam e propagam os mitos, que deveriam ser encarados como exceção.
Querer ser diferente ou exceção está bem longe de ser, de fato, diferente. A obsessão por tornar-se mito, já criou famosos oportunistas e arrogantes. Sem ética, se dispõem a aproveitar qualquer janela para aparecer e, normalmente, criam mediocridades que consideram geniais e adoram outros como eles.
No entanto, o gênio é natural, inventivo, necessita se expressar e seguir seu instinto. Transborda verdade em sua perspectiva sobre a arte e a criação, não se sente acuado ao mostrar seu jeito, estilo e interpretação próprios e, normalmente, não se vê como gênio ou age forçosa ou premeditadamente.
Artistas como Hermeto Paschoal, se dizem operários a serviço da música. Se entendem como instrumento da arte, agindo sempre de acordo com o que ela necessita. Jogando pro time, quando está com ou sem bola e, até mesmo, fora do jogo.
Curiosamente, o instrumento torna-se um instrumento do instrumento. Um apoio para traduzir o que habita em nós, através da linguagem da arte. Apesar de não fazer parte de nós, da arte ou do que vamos dizer, ele nos acompanha em toda caminhada. Mesmo sem saber, exatamente, para onde vamos e o que vamos dizer.
Dominar um instrumento, antes de tudo, é dominar a si mesmo. Conhecer limites, explorá-los e ultrapassá-los, sempre que possível. Ter disciplina, paciência, tenacidade, concentração... Compreendendo que a arte está além dele e de nós, e que é preciso buscar um entendimento de como ela se processa no mundo, nos seres, na sociedade, nos ouvintes e em nós mesmos.
Sua subjetividade e efeito são maiores que ela mesma, porque sintetizam todo seu objetivo: uma comunicação verdadeira, através de sensações e sentimentos. A descoberta e a construção de um discurso artístico é fruto da experiência e não de, efetivamente, se chegar a qualquer conclusão, afinal, precisamos de movimento e a busca é o que nos move.
Boas buscas! Até a próxima!
terça-feira, 19 de novembro de 2019
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Coluna de Setembro de 2019 para o Jornal Portal
Por quantos anos tivemos certeza de que a letra daquela canção era
outra? Isso acontece demais. E a interpretação incorreta já começa pela
dificuldade em compreender o que está sendo dito, seja pela má dicção,
má gravação, pela prosódia (acento) não respeitada, palavra desconhecida
ou fora de contexto.
Obviamente, nos dias de hoje, com tanta informação, é difícil ficarmos tanto tempo na ignorância, bastando apenas um “Google” para ter na palma da mão a resposta, trazida pelo oráculo. No entanto, numa época não tão distante, podia se passar a vida nas trevas, caso não se tivesse acesso a encartes de discos.
Cantei “Alegre menina”, de Jorge Amado e Dori Caymmi, por muito tempo: “Por que fizeste isso tão de mim, alegre menina”, até uma testemunha ocular do encarte do disco, me dizer: “Tem gente que não sabe que a música começa com o pai, perguntando ao sultão, que levou sua filha como esposa: O que fizeste, sultão, de minha alegre menina”. No que respondi: “Eu, por exemplo”...
O mais curioso é que, muitas vezes, o português não faz nenhum sentido, mas por falta de alguma palavra ou expressão que nos traga alternativa cabível, ficamos sem saída. E a letra sem nexo vai permanecendo no lugar da correta.
Neologismos, muitas vezes são herméticos. “Avohai”, de Zé Ramalho, que nos remete ao nome de um personagem, décadas depois, revelou ser “avô e pai”. Nela ainda ouvi: “Neblina tu vai brilhando” que só depois soube ser: “Neblina turva e brilhante” - nesse caso, os acentos de música e letra estão descasados.
Não podemos esquecer das pequenas trocas de palavras que se equivalem, mas não constituem erros tão crassos, afinal não somos computadores para decorar absolutamente tudo. O pior, com certeza, são os erros de interpretação.
“Bandolins” de Osvaldo Montenegro, chegou a ter, pronta, uma equipe de gravação para um clipe, no Tivoli Parque da Lagoa. Mas quando o diretor do Fantástico foi questionado sobre a locação, respondeu: “Como fosse um parque” e teve que ouvir que a letra era: “Como fosse um par, que nessa valsa triste...”
Mesmo que a letra esteja correta, existem mil maneiras de se interpretá-la, podendo ser interessante saber suas histórias, mas também muito frustrante.
A interpretação é sempre
de quem ouve e não pertence mais ao artista. Quando ele não pode mais
ser consultado ou não quer responder, a dúvida permanece no ar, e muitos
são, os adeptos da obra poder ganhar vida própria, mesmo que venha a
ser interpretada de maneira inversa a sua inspiração.
“Apesar de você”, de Chico Buarque, foi feita para o Médici? Geni era uma prostituta ou um travesti? Aquela canção de amor do Fred Mercury falava sobre Mary, sua esposa ou sobre Paul, seu namorado? Importaria saber? Ou o que vale é o quanto nos toca, por razões que nem mesmo entendemos?
Nossa experiência, sempre será nossa maior referência para entender o mundo e, quase sempre, diferente da dos outros. Dela surge nossa interpretação que influenciará outras experiências e interpretações, criando um ciclo infinito...
Na música, “Back in Bahia” de Gilberto Gil, eu ouvia: “Lá em Londres, vez em quando, me sentia longe daqui.... Nervoso querendo ouvir Celly Campello, pra não cair/ Naquela fossa/ Em que via um camarada meu de corpo belo cair...”
Essa letra não faz sentido? Mas, está incorreta. Pela falta de encarte e internet, durante muitos anos, cantei errado. Eu, simplesmente, inventei o “corpo belo”, que na verdade é “Portobello” - Observe, que a interpretação da minha versão é até mais profunda - que presunção! - e sugere uma condição depressiva na qual, mesmo um camarada bonito e malhado, poderia estar vivendo no exílio...
Mesmo que a música seja, muitas vezes, bem mais simples e direta, sua interpretação é livre, incontrolável e natural. Acontecendo à parte de permissões e vontades, torna-se manifestação abstrata de nossa liberdade e livre arbítrio.
Apesar de dizerem que tudo está relacionado, já aconteceu de atribuírem algumas músicas que fiz, à motivos que não tinham a menor relação, por isso, é preciso ter cuidado ao afirmar que uma letra, refere-se a isso, àquilo ou a um fato real. E, caso não tenha a chancela do autor, é preciso sublinhar que aquela interpretação é, apenas, uma possibilidade, que fez algum sentido.
Já tive notícias de um festival, onde o apresentador contou uma história triste sobre a canção que seria executada a seguir, dizendo que era muito difícil para o cantor, pois era sobre a perda de sua esposa etc. Muito sem graça, o compositor subiu ao palco, desmentiu o boato e tocou a música...
Salve a idiossincrasia! Até a próxima!
Obviamente, nos dias de hoje, com tanta informação, é difícil ficarmos tanto tempo na ignorância, bastando apenas um “Google” para ter na palma da mão a resposta, trazida pelo oráculo. No entanto, numa época não tão distante, podia se passar a vida nas trevas, caso não se tivesse acesso a encartes de discos.
Cantei “Alegre menina”, de Jorge Amado e Dori Caymmi, por muito tempo: “Por que fizeste isso tão de mim, alegre menina”, até uma testemunha ocular do encarte do disco, me dizer: “Tem gente que não sabe que a música começa com o pai, perguntando ao sultão, que levou sua filha como esposa: O que fizeste, sultão, de minha alegre menina”. No que respondi: “Eu, por exemplo”...
O mais curioso é que, muitas vezes, o português não faz nenhum sentido, mas por falta de alguma palavra ou expressão que nos traga alternativa cabível, ficamos sem saída. E a letra sem nexo vai permanecendo no lugar da correta.
Neologismos, muitas vezes são herméticos. “Avohai”, de Zé Ramalho, que nos remete ao nome de um personagem, décadas depois, revelou ser “avô e pai”. Nela ainda ouvi: “Neblina tu vai brilhando” que só depois soube ser: “Neblina turva e brilhante” - nesse caso, os acentos de música e letra estão descasados.
Não podemos esquecer das pequenas trocas de palavras que se equivalem, mas não constituem erros tão crassos, afinal não somos computadores para decorar absolutamente tudo. O pior, com certeza, são os erros de interpretação.
“Bandolins” de Osvaldo Montenegro, chegou a ter, pronta, uma equipe de gravação para um clipe, no Tivoli Parque da Lagoa. Mas quando o diretor do Fantástico foi questionado sobre a locação, respondeu: “Como fosse um parque” e teve que ouvir que a letra era: “Como fosse um par, que nessa valsa triste...”
Mesmo que a letra esteja correta, existem mil maneiras de se interpretá-la, podendo ser interessante saber suas histórias, mas também muito frustrante.
“Manuel, o audaz” é uma música
feita para o Jipe do Toninho Horta, que despencou ladeira a baixo.
“Diana”, dos mesmos parceiros, foi feita para a cadelinha de Fernando
Brant, que havia morrido.
“Apesar de você”, de Chico Buarque, foi feita para o Médici? Geni era uma prostituta ou um travesti? Aquela canção de amor do Fred Mercury falava sobre Mary, sua esposa ou sobre Paul, seu namorado? Importaria saber? Ou o que vale é o quanto nos toca, por razões que nem mesmo entendemos?
Nossa experiência, sempre será nossa maior referência para entender o mundo e, quase sempre, diferente da dos outros. Dela surge nossa interpretação que influenciará outras experiências e interpretações, criando um ciclo infinito...
Na música, “Back in Bahia” de Gilberto Gil, eu ouvia: “Lá em Londres, vez em quando, me sentia longe daqui.... Nervoso querendo ouvir Celly Campello, pra não cair/ Naquela fossa/ Em que via um camarada meu de corpo belo cair...”
Essa letra não faz sentido? Mas, está incorreta. Pela falta de encarte e internet, durante muitos anos, cantei errado. Eu, simplesmente, inventei o “corpo belo”, que na verdade é “Portobello” - Observe, que a interpretação da minha versão é até mais profunda - que presunção! - e sugere uma condição depressiva na qual, mesmo um camarada bonito e malhado, poderia estar vivendo no exílio...
Mesmo que a música seja, muitas vezes, bem mais simples e direta, sua interpretação é livre, incontrolável e natural. Acontecendo à parte de permissões e vontades, torna-se manifestação abstrata de nossa liberdade e livre arbítrio.
Apesar de dizerem que tudo está relacionado, já aconteceu de atribuírem algumas músicas que fiz, à motivos que não tinham a menor relação, por isso, é preciso ter cuidado ao afirmar que uma letra, refere-se a isso, àquilo ou a um fato real. E, caso não tenha a chancela do autor, é preciso sublinhar que aquela interpretação é, apenas, uma possibilidade, que fez algum sentido.
Já tive notícias de um festival, onde o apresentador contou uma história triste sobre a canção que seria executada a seguir, dizendo que era muito difícil para o cantor, pois era sobre a perda de sua esposa etc. Muito sem graça, o compositor subiu ao palco, desmentiu o boato e tocou a música...
Salve a idiossincrasia! Até a próxima!
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Coluna de Agosto de 2019 para o Jornal Portal
Às vezes, pensamos em desistir. Largar a tudo que temos nos
dedicado e deixar que o mundo e, principalmente, os humanos que o
habitam, se explodam. É difícil viver, sem ver reconhecido nosso
esforço, nossa dedicação e, mais ainda, nossa abnegação, já que a maior
parte do trabalho de um artista é invisível.
A arte exige que estejamos disponíveis vinte e quatro horas do dia, sete dias da semana, trinta dias do mês, doze meses do ano... Quanto mais disponíveis, mais conseguimos transmiti-la e mais somos instrumento, através do qual ela se manifesta. Grandes artistas dedicam-se integralmente.
Perceba que no início da carreira, a maioria dos artistas, tem bastante volume e conteúdo, no entanto, com o passar do tempo, essa pujança diminui bastante e ele passa a viver uma inspiração mais escassa. É óbvio que existe uma diferença hormonal considerável entre a juventude e a vida adulta, que atenua a energia, mas que, normalmente, é recompensada com maturidade.
O sucesso, apesar de ser um reconhecimento, pode levar o artista para longe de si, fazendo-o perder a conexão. Não é difícil imaginar o quanto de empenho, antes dedicado ao trabalho, passam a demandar as festas, comemorações, divulgações, recepções e eventos, onde sua presença se torna obrigatória.
Não quero dizer que sua vida deva ser de clausura e celibato, mas que é preciso saber equilibrar os deveres entre o mundo profano e o seu sacro ofício. Avaliar, por exemplo, se a entrega de um prêmio é, de fato, tão importante, que justifica sua ausência numa festa de família ou festejo tradicional em sua cidade natal.
Afinal, tudo que o conecta às raízes, pode ser de suma importância para que se mantenham abertas as portas e seu fluxo de troca com a fonte. Hoje, a conduta profissional justifica ações de ética discutível e confunde, principalmente na cabeça dos mais jovens, a dedicação ao ofício, com a dedicação à fama.
Devemos ter entre nossas referências, artistas que souberam ser grandes em todos os sentidos, para podermos nos espelhar e usá-los como parâmetro. Pois não há legado na arte vazia, nem vida vazia para quem se entende tendo nas mãos uma missão. Somente esse compromisso pode tornar uma obra imortal.
Da reflexão sobre ela, vem a herança e os melhores conselhos. Mais do que querer deixar um nome para a posteridade, mostrar um propósito para a humanidade que habitará o planeta. Apesar da distância física, social, cultural, temporal e de linguagem ou qualquer outro obstáculo que possa haver.
A arte exige que estejamos disponíveis vinte e quatro horas do dia, sete dias da semana, trinta dias do mês, doze meses do ano... Quanto mais disponíveis, mais conseguimos transmiti-la e mais somos instrumento, através do qual ela se manifesta. Grandes artistas dedicam-se integralmente.
Perceba que no início da carreira, a maioria dos artistas, tem bastante volume e conteúdo, no entanto, com o passar do tempo, essa pujança diminui bastante e ele passa a viver uma inspiração mais escassa. É óbvio que existe uma diferença hormonal considerável entre a juventude e a vida adulta, que atenua a energia, mas que, normalmente, é recompensada com maturidade.
O sucesso, apesar de ser um reconhecimento, pode levar o artista para longe de si, fazendo-o perder a conexão. Não é difícil imaginar o quanto de empenho, antes dedicado ao trabalho, passam a demandar as festas, comemorações, divulgações, recepções e eventos, onde sua presença se torna obrigatória.
Não quero dizer que sua vida deva ser de clausura e celibato, mas que é preciso saber equilibrar os deveres entre o mundo profano e o seu sacro ofício. Avaliar, por exemplo, se a entrega de um prêmio é, de fato, tão importante, que justifica sua ausência numa festa de família ou festejo tradicional em sua cidade natal.
Afinal, tudo que o conecta às raízes, pode ser de suma importância para que se mantenham abertas as portas e seu fluxo de troca com a fonte. Hoje, a conduta profissional justifica ações de ética discutível e confunde, principalmente na cabeça dos mais jovens, a dedicação ao ofício, com a dedicação à fama.
Devemos ter entre nossas referências, artistas que souberam ser grandes em todos os sentidos, para podermos nos espelhar e usá-los como parâmetro. Pois não há legado na arte vazia, nem vida vazia para quem se entende tendo nas mãos uma missão. Somente esse compromisso pode tornar uma obra imortal.
Da reflexão sobre ela, vem a herança e os melhores conselhos. Mais do que querer deixar um nome para a posteridade, mostrar um propósito para a humanidade que habitará o planeta. Apesar da distância física, social, cultural, temporal e de linguagem ou qualquer outro obstáculo que possa haver.
Essa semana,
tive aula com o Maestro Jobim, sobre sua introdução ao “Samba do avião”
em intervalos de quartas. Lembrei que ele havia gravado uma outra música
com uma abordagem semelhante, um baião de João do Vale chamado “Pé do
lajeiro” e fomos estudar:
Em Mi bemol, com quadratura irregular, essa gravação de 1981, mexeu muito comigo, uma frase profunda feita nesses tais intervalos, flertando com o politonalismo, fritou meu cérebro. Descobri que o arranjo era de João Donato.
Semana passada a aula foi com Jota Moraes, através do seu arranjo para “Lindo, lago do amor” de Gonzaguinha. Como pode uma música tão simples e pequena, ter tanto pra se ensinar de harmonia? Aulas intensas:
Três mortos e dois vivos, que nunca pude conhecer, conversar ou sequer estar perto. Mas que me deram a oportunidade de aprender através de sua obra, me deixando muito agradecido e próximo a eles, como se tivessem se tornado, de fato, velhos conhecidos. Que saíram de dentro de um disco para me ajudar.
E as aulas não param por aí, nem se limitam apenas a música, às vezes, chego a confundi-las. A aula onde Chico César recitou o verso de “Beradêro”: “A cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire”. Seria de poesia ou de sociologia?
Candeia, em Moral e Cívica, nos ensinou: “Quem não lutar pra conquistar o que sonhou/ fazer por merecer/ se iluminar na luz que há no vencedor/ pode até ganhar/ e méritos não ter/ Aquecer os seus ideais em muito amor/ com o poder nas mãos não brincar/ o arvoredo do mal derrubar/ e arrancá-lo bem na raiz/ Sua vida no bem sublimar/ pra ajudar a erguer o pilar/ de um mundo bem mais feliz”.
Muito antes do ensino à distância, esses mestres já ensinavam através da arte. Muitos viveram em grande dificuldade, tendo que fazer, das frustrações, combustível. Obcecados por deixar um legado, muitas vezes, até, sem reconhecimento em vida, mantiveram-se fieis às suas ideias. Apesar de não pedirem nada em troca, só pelo fato de nos motivarem a seguir, também nos fazem motivar muitos outros, num ciclo virtuoso que mantém acesa a chama.
Mais importante que desvendar os mistérios do mundo, é ouvir o chamado destes homens, que também ouviram o chamado e sentiram-se comprometidos a perpetuar a história. Mesmo sem ter nada a favor, sempre que tiveram oportunidade, desistiram de desistir. Por eles, sigamos singrando!
Até a próxima!
Em Mi bemol, com quadratura irregular, essa gravação de 1981, mexeu muito comigo, uma frase profunda feita nesses tais intervalos, flertando com o politonalismo, fritou meu cérebro. Descobri que o arranjo era de João Donato.
Semana passada a aula foi com Jota Moraes, através do seu arranjo para “Lindo, lago do amor” de Gonzaguinha. Como pode uma música tão simples e pequena, ter tanto pra se ensinar de harmonia? Aulas intensas:
Três mortos e dois vivos, que nunca pude conhecer, conversar ou sequer estar perto. Mas que me deram a oportunidade de aprender através de sua obra, me deixando muito agradecido e próximo a eles, como se tivessem se tornado, de fato, velhos conhecidos. Que saíram de dentro de um disco para me ajudar.
E as aulas não param por aí, nem se limitam apenas a música, às vezes, chego a confundi-las. A aula onde Chico César recitou o verso de “Beradêro”: “A cigana analfabeta lendo a mão de Paulo Freire”. Seria de poesia ou de sociologia?
Candeia, em Moral e Cívica, nos ensinou: “Quem não lutar pra conquistar o que sonhou/ fazer por merecer/ se iluminar na luz que há no vencedor/ pode até ganhar/ e méritos não ter/ Aquecer os seus ideais em muito amor/ com o poder nas mãos não brincar/ o arvoredo do mal derrubar/ e arrancá-lo bem na raiz/ Sua vida no bem sublimar/ pra ajudar a erguer o pilar/ de um mundo bem mais feliz”.
Muito antes do ensino à distância, esses mestres já ensinavam através da arte. Muitos viveram em grande dificuldade, tendo que fazer, das frustrações, combustível. Obcecados por deixar um legado, muitas vezes, até, sem reconhecimento em vida, mantiveram-se fieis às suas ideias. Apesar de não pedirem nada em troca, só pelo fato de nos motivarem a seguir, também nos fazem motivar muitos outros, num ciclo virtuoso que mantém acesa a chama.
Mais importante que desvendar os mistérios do mundo, é ouvir o chamado destes homens, que também ouviram o chamado e sentiram-se comprometidos a perpetuar a história. Mesmo sem ter nada a favor, sempre que tiveram oportunidade, desistiram de desistir. Por eles, sigamos singrando!
Até a próxima!
sábado, 3 de agosto de 2019
Coluna de Julho de 2019 para o Jornal Portal
Se vierem me perguntar se vivo de música, obviamente, direi que sim. É um fato. Através dela, seja tocando, ensinando ou compondo, consigo tirar o meu suado sustento. Mas, ainda assim, sinto que a resposta está incompleta.
Pois ainda que trabalhe todos os dias, inclusive aos finais de semana; escreva sobre ela aqui no jornal, no meu blog ou na página do meu grupo, é ela que me faz relaxar no repouso e, nas horas de lazer, é o meu assunto predileto.
Não há overdose, apenas, prazer. Pura manifestação do que habita em mim e se torna maior a cada dia. Não se trata de dom, não me torna um bom músico, apenas, um ser que sente, pensa e expressa música.
Hoje, entendo a música como um estado de espírito, assim como, um dia, ouvi Jô Soares falar sobre o humor. É uma maneira de entender o mundo. Um ponto de vista. Quem sabe, usando a língua da informática, a música seja minha linguagem de máquina e meu sistema compreenda tudo sob esse prisma.
O Português acaba ficando secundário pois, apesar de ser a interface de comunicação com meus conterrâneos e lusófonos do mundo inteiro e, através dele, falar sobre música, é a sua análise e não a do Português, que traz tantas comparações e analogias, fazendo tudo parecer ter algum sentido.
Por isso, peço perdão aos leitores se falo sobre política, saúde, antropologia, psicologia, etc. misturando tudo no mesmo texto, afinal, através dela, tudo me parece compreensível e relacionado. E, ainda que não haja palavras, há um som, um grito ou um acorde. É a mais antiga das linguagens e das artes.
Não é apenas uma filosofia de vida, mas a própria vida, que se apresenta em pequenas doses, já que nela e no seu exercício, se encerram as questões da nossa existência, seja através da prática ou da teoria, seja de forma literal ou metafórica. Falar de música é falar da vida, aprender a tocar é aprender a viver.
Sergio Chiavazzoli, multi-instrumentista da pesada, que, entre outros trabalhos, toca na banda de Gilberto Gil, diz que não se estuda um instrumento para se tocar bem, mas para, através dele, entender a vida. E que os músicos são fios condutores da música que habita o etéreo. Quanto mais se doa e mais conectado se está, mais ela flui e acontece.
Não se trata de religião, apesar de uma acepção desta palavra ser religar, o que nos permite interpretar que a música ou qualquer outro trabalho, realizado com satisfação, pode restabelecer conexões perdidas e nos conectar, novamente, ao universo ou ao criador, que se encontra acima de nomes e religiões.
Ao estudar música, aprendemos de tudo! Que o som não se propaga no vácuo e que por isso, a explosão dos Vingadores não poderia ser ouvida. Que o índio botava o ouvido no chão para ouvir a cavalaria, pois o som é mais rápido no sólido e, assim, daria para ouvir o trote, mesmo a uma distância impensável.
Que se coloca uma caixa de som embaixo d’água, para ajudar atletas de nado sincronizado a manterem-se no ritmo, embora a música fique distorcida pelo meio ser a água e não o ar. E que o sonar do submarino imita o do golfinho, emitindo sons e calculando as distâncias, conforme recebe a resposta do eco.
Que os surdos dançam através do tato, pois percebem as batidas do ritmo na sola dos pés e no peito. Assim como, na época medieval, a presença de Deus era imposta aos fiéis, nas notas graves e silentes dos órgãos de tubo, inaudíveis ao ser humano, sentidas no vibrar do peito, das paredes e vitrais das igrejas.
Conhecer os processos humanos de percepção do som é muito importante para poder criar. Da mesma forma, é preciso saber nossas reações a música, esta que é a elaboração do som, criada e consumida por nós. Além de suas bases: ritmo, melodia e harmonia... Cujo conhecimento permite seu pleno domínio.
Os criadores, sabem brincar com as sensações de repouso, movimento, tensão, surpresa, relaxamento etc... Criando verdadeiros discursos, que provocam, intencionalmente, diversas sensações nos espectadores. Gerando também, nos próprios músicos, paralelos entre a realidade da vida e da música.
Qual a vantagem em ser destaque, se uma nota depende de outras para virar acorde e, sendo a nota principal de um, será secundária em todos os outros? Por que dar tanta atenção a um pequeno erro se o que vale é a intenção? Afinal, o acento rítmico pode transformar um “desafino” numa nota de passagem.
Não há sentido nos extremos, tudo acontece em ciclos e devemos, em prol do equilíbrio, contrabalançar. Colaborar ao invés de competir. Deixar cada nota brilhar em seu momento oportuno, pois todas são fundamentais e irão aparecer. Há espaço... E tempo... Quem não entendeu isso, ainda não entendeu nada.
A música permeia todos os saberes como uma gravidade que une tudo. É a manifestação do divino, a forma de senti-lo e tocá-lo, seja no mundo material ou dentro de nós. E nos tornando seus embaixadores, botamos em prática a prece que diz: “...Reveste-nos de Tua beleza! E que todos quanto se chegarem a nós, sintam Tua presença e no decurso deste dia, possamos Te revelar a todos...”
Fiquem em paz!!! Até a próxima!
Pois ainda que trabalhe todos os dias, inclusive aos finais de semana; escreva sobre ela aqui no jornal, no meu blog ou na página do meu grupo, é ela que me faz relaxar no repouso e, nas horas de lazer, é o meu assunto predileto.
Não há overdose, apenas, prazer. Pura manifestação do que habita em mim e se torna maior a cada dia. Não se trata de dom, não me torna um bom músico, apenas, um ser que sente, pensa e expressa música.
Hoje, entendo a música como um estado de espírito, assim como, um dia, ouvi Jô Soares falar sobre o humor. É uma maneira de entender o mundo. Um ponto de vista. Quem sabe, usando a língua da informática, a música seja minha linguagem de máquina e meu sistema compreenda tudo sob esse prisma.
O Português acaba ficando secundário pois, apesar de ser a interface de comunicação com meus conterrâneos e lusófonos do mundo inteiro e, através dele, falar sobre música, é a sua análise e não a do Português, que traz tantas comparações e analogias, fazendo tudo parecer ter algum sentido.
Por isso, peço perdão aos leitores se falo sobre política, saúde, antropologia, psicologia, etc. misturando tudo no mesmo texto, afinal, através dela, tudo me parece compreensível e relacionado. E, ainda que não haja palavras, há um som, um grito ou um acorde. É a mais antiga das linguagens e das artes.
Não é apenas uma filosofia de vida, mas a própria vida, que se apresenta em pequenas doses, já que nela e no seu exercício, se encerram as questões da nossa existência, seja através da prática ou da teoria, seja de forma literal ou metafórica. Falar de música é falar da vida, aprender a tocar é aprender a viver.
Sergio Chiavazzoli, multi-instrumentista da pesada, que, entre outros trabalhos, toca na banda de Gilberto Gil, diz que não se estuda um instrumento para se tocar bem, mas para, através dele, entender a vida. E que os músicos são fios condutores da música que habita o etéreo. Quanto mais se doa e mais conectado se está, mais ela flui e acontece.
Não se trata de religião, apesar de uma acepção desta palavra ser religar, o que nos permite interpretar que a música ou qualquer outro trabalho, realizado com satisfação, pode restabelecer conexões perdidas e nos conectar, novamente, ao universo ou ao criador, que se encontra acima de nomes e religiões.
Ao estudar música, aprendemos de tudo! Que o som não se propaga no vácuo e que por isso, a explosão dos Vingadores não poderia ser ouvida. Que o índio botava o ouvido no chão para ouvir a cavalaria, pois o som é mais rápido no sólido e, assim, daria para ouvir o trote, mesmo a uma distância impensável.
Que se coloca uma caixa de som embaixo d’água, para ajudar atletas de nado sincronizado a manterem-se no ritmo, embora a música fique distorcida pelo meio ser a água e não o ar. E que o sonar do submarino imita o do golfinho, emitindo sons e calculando as distâncias, conforme recebe a resposta do eco.
Que os surdos dançam através do tato, pois percebem as batidas do ritmo na sola dos pés e no peito. Assim como, na época medieval, a presença de Deus era imposta aos fiéis, nas notas graves e silentes dos órgãos de tubo, inaudíveis ao ser humano, sentidas no vibrar do peito, das paredes e vitrais das igrejas.
Conhecer os processos humanos de percepção do som é muito importante para poder criar. Da mesma forma, é preciso saber nossas reações a música, esta que é a elaboração do som, criada e consumida por nós. Além de suas bases: ritmo, melodia e harmonia... Cujo conhecimento permite seu pleno domínio.
Os criadores, sabem brincar com as sensações de repouso, movimento, tensão, surpresa, relaxamento etc... Criando verdadeiros discursos, que provocam, intencionalmente, diversas sensações nos espectadores. Gerando também, nos próprios músicos, paralelos entre a realidade da vida e da música.
Qual a vantagem em ser destaque, se uma nota depende de outras para virar acorde e, sendo a nota principal de um, será secundária em todos os outros? Por que dar tanta atenção a um pequeno erro se o que vale é a intenção? Afinal, o acento rítmico pode transformar um “desafino” numa nota de passagem.
Não há sentido nos extremos, tudo acontece em ciclos e devemos, em prol do equilíbrio, contrabalançar. Colaborar ao invés de competir. Deixar cada nota brilhar em seu momento oportuno, pois todas são fundamentais e irão aparecer. Há espaço... E tempo... Quem não entendeu isso, ainda não entendeu nada.
A música permeia todos os saberes como uma gravidade que une tudo. É a manifestação do divino, a forma de senti-lo e tocá-lo, seja no mundo material ou dentro de nós. E nos tornando seus embaixadores, botamos em prática a prece que diz: “...Reveste-nos de Tua beleza! E que todos quanto se chegarem a nós, sintam Tua presença e no decurso deste dia, possamos Te revelar a todos...”
Fiquem em paz!!! Até a próxima!
quarta-feira, 3 de julho de 2019
Coluna de Junho de 2019 para o Jornal Portal
Tive um insight. Uma ideia especial. Algo tão legal que, na mesma hora, pensei em escrever aqui na coluna. Mas como estava no carro, levando minha filha à escola, acabei não tomando nota e nem gravando. Agora, trago essa sensação, nítida como no momento, mas não lembro do que se tratava...
Várias vezes, quando sento à frente do computador, as ideias vão sumindo, pulando para fora, se jogando noutros lugares e esvaziando minha cabeça. Acho que vão para os colunistas Ricardo Dias ou Marcelo Biar, não sei... É algo que, constantemente, acontece e gostaria de entender.
Nas “gravinas”, é comum brincarmos que: “gravando!” é “travando!”. Porque depois do tal aviso vem aquela paralisia imensa e aqueles erros bobos... Nas “guigues” ao vivo, quantos lapsos criam melodias, acordes e letras novas para músicas conhecidas, praticamente, nos tornando parceiros do compositor...
É lugar comum: na frente do professor, não há dúvidas. No médico, os sintomas não aparecem. No mecânico, o carro não apresenta defeito... É pegadinha? Porque isso acontece? Não seria bom compreender esses hiatos? Mas, pensando bem, acho que eles não têm a mesma origem.
As causas podem ser muitas, entre elas: o cansaço, a falta de concentração, o excesso de expectativa e de pressão, que abalam o psicológico, até mesmo, dos astros. E é fato: estar sendo observado, testado, vigiado ou, até mesmo, julgado, colocando em xeque o que somos, aumenta bastante o problema.
Obviamente, não é certo, inteligente, nem justo, julgar toda história de uma pessoa, por um momento da carreira onde houve um acerto ou um erro. Existem situações nas quais não se tem o menor controle ou influência. E o contexto, local ou global, influencia completamente em qualquer profissão.
Além das causas externas, naturais, sociais ou estruturais, estas, sanadas ao se trabalhar com profissionais qualificados, comprometidos e com salário digno, existem as internas, que não são eventuais, mas traços da personalidade e da educação, oriundas da falta de preparo, influência da soberba ou da falta de autoconfiança - duas pontas de uma mesma corda.
Enquanto uma tende a fazer análises superficiais, julgando que as coisas complexas são triviais; a outra, que também julga, supõe que tudo é demasiadamente complicado. A generalização não abrange os detalhes e essas duas faces da inconsciência, têm um quê de auto sabotagem.
A sedimentação técnica também é uma carência, já que para ocorrer, necessita de um número sem-fim de repetições, feitas corretamente, até que os elementos formadores da música se transformem em movimentos do corpo, tornando as ideias, impulsos medulares e mecânicos. Dino sete cordas é um exemplo disso.
Apesar de não ter sido o primeiro a tocar este tipo de violão, tornou-se sua maior referência, devido à linguagem que concebeu, utilizando técnica, conhecimento e criatividade. No entanto, depois de encomendar e adquirir o instrumento, ficou anos estudando em casa, tocando em público, apenas, o tradicional seis cordas, só se permitindo empunhar o sete, profissionalmente, depois de dominá-lo.
O domínio técnico faz os fãs pensarem que um “virtuose” pode ser bom em qualquer gênero, mas isso é um engano. Pois a preparação também inclui conhecimento da linguagem, clichês, referências, repertório fundamental do estilo... Se não for, através da vivência, há que se ter um estudo profundo, uma imersão muito bem feita, para que as lacunas sejam preenchidas corretamente.
É comum se pensar que tocar de improviso é criar algo totalmente novo, repentinamente, e isso é algo muito raro. Apesar do improviso ser um discurso não rascunhado, mesmo que se tenha uma boa retórica, é preciso conhecer, profundamente, o assunto sobre o qual vai se falar e dominar a língua, afinal, como seria possível discursar de improviso, num idioma desconhecido?
Todos os elementos que o improvisador utiliza, são frutos da sua experiência, do conhecimento da linguagem, das malandragens e “pulos do gato”, que estão nos detalhes, na capacidade de absorvê-los e somá-los às suas; e de encontrar um jeito próprio de expressá-los. É um compositor instantâneo e não um médium.
A palavra composição, entre muitas acepções, significa organização entre as partes de um todo. No que tange a criação, é criar uma colcha de retalhos, onde cada parte é tão conhecida, que pensamos ser nossa ou não ter dono.
Ao longo da jornada, temos contato com assuntos que nos causam maior interesse e, neles, nos aprofundamos, desenvolvemos e nos tornamos conhecedores. Mas isso não acontece a cada momento, em todas as nossas atividades, assim, vivemos de forma medíocre: entre as médias do mundo.
Já que não é possível ser bom em tudo, é preciso entender que isso é natural. Mas para estar acima dela, pelo menos no que nos mais interessa, é preciso querer se debruçar sobre os detalhes e saber que não existe um segredo escondido e, sim, algo que precisa ser construído, esmiuçado e sedimentado pela rotina.
E o mais inacreditável é ter ciência de que, na maioria das vezes, não estaremos disponíveis para a realização dos nossos próprios planos, preferindo um pouco de anestésico para esquecer os problemas e nos perdermos por aí.
Quer saber, vou dar uma relaxada... Até a próxima!
Várias vezes, quando sento à frente do computador, as ideias vão sumindo, pulando para fora, se jogando noutros lugares e esvaziando minha cabeça. Acho que vão para os colunistas Ricardo Dias ou Marcelo Biar, não sei... É algo que, constantemente, acontece e gostaria de entender.
Nas “gravinas”, é comum brincarmos que: “gravando!” é “travando!”. Porque depois do tal aviso vem aquela paralisia imensa e aqueles erros bobos... Nas “guigues” ao vivo, quantos lapsos criam melodias, acordes e letras novas para músicas conhecidas, praticamente, nos tornando parceiros do compositor...
É lugar comum: na frente do professor, não há dúvidas. No médico, os sintomas não aparecem. No mecânico, o carro não apresenta defeito... É pegadinha? Porque isso acontece? Não seria bom compreender esses hiatos? Mas, pensando bem, acho que eles não têm a mesma origem.
As causas podem ser muitas, entre elas: o cansaço, a falta de concentração, o excesso de expectativa e de pressão, que abalam o psicológico, até mesmo, dos astros. E é fato: estar sendo observado, testado, vigiado ou, até mesmo, julgado, colocando em xeque o que somos, aumenta bastante o problema.
Obviamente, não é certo, inteligente, nem justo, julgar toda história de uma pessoa, por um momento da carreira onde houve um acerto ou um erro. Existem situações nas quais não se tem o menor controle ou influência. E o contexto, local ou global, influencia completamente em qualquer profissão.
Além das causas externas, naturais, sociais ou estruturais, estas, sanadas ao se trabalhar com profissionais qualificados, comprometidos e com salário digno, existem as internas, que não são eventuais, mas traços da personalidade e da educação, oriundas da falta de preparo, influência da soberba ou da falta de autoconfiança - duas pontas de uma mesma corda.
Enquanto uma tende a fazer análises superficiais, julgando que as coisas complexas são triviais; a outra, que também julga, supõe que tudo é demasiadamente complicado. A generalização não abrange os detalhes e essas duas faces da inconsciência, têm um quê de auto sabotagem.
A sedimentação técnica também é uma carência, já que para ocorrer, necessita de um número sem-fim de repetições, feitas corretamente, até que os elementos formadores da música se transformem em movimentos do corpo, tornando as ideias, impulsos medulares e mecânicos. Dino sete cordas é um exemplo disso.
Apesar de não ter sido o primeiro a tocar este tipo de violão, tornou-se sua maior referência, devido à linguagem que concebeu, utilizando técnica, conhecimento e criatividade. No entanto, depois de encomendar e adquirir o instrumento, ficou anos estudando em casa, tocando em público, apenas, o tradicional seis cordas, só se permitindo empunhar o sete, profissionalmente, depois de dominá-lo.
O domínio técnico faz os fãs pensarem que um “virtuose” pode ser bom em qualquer gênero, mas isso é um engano. Pois a preparação também inclui conhecimento da linguagem, clichês, referências, repertório fundamental do estilo... Se não for, através da vivência, há que se ter um estudo profundo, uma imersão muito bem feita, para que as lacunas sejam preenchidas corretamente.
É comum se pensar que tocar de improviso é criar algo totalmente novo, repentinamente, e isso é algo muito raro. Apesar do improviso ser um discurso não rascunhado, mesmo que se tenha uma boa retórica, é preciso conhecer, profundamente, o assunto sobre o qual vai se falar e dominar a língua, afinal, como seria possível discursar de improviso, num idioma desconhecido?
Todos os elementos que o improvisador utiliza, são frutos da sua experiência, do conhecimento da linguagem, das malandragens e “pulos do gato”, que estão nos detalhes, na capacidade de absorvê-los e somá-los às suas; e de encontrar um jeito próprio de expressá-los. É um compositor instantâneo e não um médium.
A palavra composição, entre muitas acepções, significa organização entre as partes de um todo. No que tange a criação, é criar uma colcha de retalhos, onde cada parte é tão conhecida, que pensamos ser nossa ou não ter dono.
Ao longo da jornada, temos contato com assuntos que nos causam maior interesse e, neles, nos aprofundamos, desenvolvemos e nos tornamos conhecedores. Mas isso não acontece a cada momento, em todas as nossas atividades, assim, vivemos de forma medíocre: entre as médias do mundo.
Já que não é possível ser bom em tudo, é preciso entender que isso é natural. Mas para estar acima dela, pelo menos no que nos mais interessa, é preciso querer se debruçar sobre os detalhes e saber que não existe um segredo escondido e, sim, algo que precisa ser construído, esmiuçado e sedimentado pela rotina.
E o mais inacreditável é ter ciência de que, na maioria das vezes, não estaremos disponíveis para a realização dos nossos próprios planos, preferindo um pouco de anestésico para esquecer os problemas e nos perdermos por aí.
Quer saber, vou dar uma relaxada... Até a próxima!
quinta-feira, 20 de junho de 2019
Coluna de Maio de 2019 para o Jornal Portal
As notas sempre foram representadas por letras, denominadas cifras, desde que se têm notícia das primeiras formas de escrita e notação musical. Nos países de origem anglo-saxônica é assim até hoje: as sete primeiras letras do alfabeto A, B, C, D, E, F e G, representam, respectivamente: Lá, Si, Dó, Ré, Mi, Fá e Sol.
Alguns dizem que se começa pelo Lá porque é a primeira tecla do piano, outros, porque é a única nota com frequência exata. Os mais dados aos mistérios, dizem que maçons, influenciaram na escolha para que o “G”, sétima letra, símbolo de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, coincidisse, exatamente, com o nome “Sol”, que é o símbolo do brilho de sua luz e sabedoria. Será?
Esse sistema, usado em muitos países, sofre um problema no momento de se cantar as escalas usando o nome de cada nota - o famoso solfejo. Pois, muitos nomes de letras são dissílabos, como: Alfa, Beta, Gama... E, fazia-se necessário nomes monossilábicos, para facilitar sua entonação.
Países latinos, influenciados pela igreja, adotaram outros nomes. O Monge Guido D'arezzo, no século XII, usou a primeira sílaba de cada verso do hino a São João, em latim, para batizá-las. E, durante a época em que a Itália dominou, culturalmente, o mundo, foram enormemente difundidas.
Eis o hino: “Ut queant laxis / Resonare fibris / Mira gestorum / Famuli tuorum / Solve polluti / Labii reatum / Sancte Iohannes.” Que significa: “Para que teus grandes servos, possam ressoar claramente a maravilha dos teus feitos, limpe nossos lábios impuros, ó São João.” As notas: Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e San.
Mais tarde, Giuseppe Doni sugeriu que o nome Ut, fosse trocado por Dó. Seria apenas coincidência, ser a primeira sílaba de seu sobrenome? E o San foi trocado por “S.I.”, que, na verdade, é uma sigla feita com as duas primeiras letras de Sancte Iohannes. Esses nomes seriam mais sonoros.
As notas musicais são frequências que, como as horas, depois de cumprir um ciclo, voltam ao “mesmo lugar”, porém mais agudas ou graves, dependendo da direção tomada. Saindo da frequência batizada de Lá, que é 440Hz, se chega a outro Lá, tanto subindo a 880Hz (dobro), quanto descendo a 220Hz (metade).
A essa distância damos o nome de oitava, já que, no ocidente, entre estas duas notas iguais, encontrava-se outros sete sons. Posteriormente, percebeu-se que possuíam intervalos diferentes entre si e houve a necessidade de se usar mais 5 sons, para que a oitava se dividisse em 12 partes iguais.
Se estes novos sons tivessem novos nomes, haveria uma grande confusão, já que o entendimento, a maneira de se pensar, tocar e compor, baseava-se, há séculos, em um sistema de 7 sons. Por isso, foram entendidos como acidentes, variações nas notas antigas - agora naturais - adicionados de um sobrenome.
Por exemplo, a nota entre Dó e Ré, recebe os nomes de Dó sustenido (elevado) (#) ou Ré Bemol (abaixado) (b), dependendo de qual delas se substitui ou da direção do movimento que use as duas, a natural e a acidental. Os intervalos Mi/Fá e Si/Dó, são os menores e, por isso, sem acidentes entre suas notas.
A brincadeira entre os sons e seus nomes é algo comum, pode usar formas mais técnicas ou artifícios, solfejando os nomes das notas, no meio de uma canção, preenchendo um espaço sem letra com os nomes verdadeiros dos sons emitidos. Em “Dó Ré Mi”, da “Noviça rebelde”, suas notas realmente são entoadas, apesar da letra criar outra conotação para seus nomes.
Em “Samba de uma nota só”, o nome das sete notas é apenas falado com o objetivo de fazer rima, sem, na verdade, mudar de nota: “E quem quer todas as notas / Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó / fica sempre sem nenhuma / fica numa nota só.“
Enriquez Bacalov e Sérgio Bardotti, na música “Il mio canto”, dos Saltimbancos, vertida como “Minha Canção”, por Chico Buarque, fizeram uma melodia baseada na escala de Dó, onde cada verso repete a mesma nota entre quatro e seis vezes e possui como primeira sílaba, o nome da nota que está sendo cantada:
Sobe: “Dorme a cidade / Resta um coração / Misterioso / Faz uma ilusão / Soletra um verso / Lá na melodia / Singelamente / Dolorosamente.” E desce: “Doce a música / Silenciosa / Larga meu peito / Solta-se no espaço / Faz-se certeza / Minha canção / Réstia de luz, onde / Dorme o meu irmão.”
Chico não deixa de ser gênio por não ter tido essa ideia, tampouco torna-se um, apenas, por causa dos famosos proparoxítonos do final de todos os versos da música “Construção”. Essas são apenas duas pequenas observações feitas em sua vasta obra, que tanto tem a nos impressionar, emocionar e ensinar.
Alguns amigos não gostam, que eu sublinhe que esta é uma versão. Mas tenho a certeza de que ele mesmo não quer, e nem precisa, ter o crédito pelo que não fez. É muito importante falar os nomes dos compositores e não apenas dos intérpretes ou tradutores, reconhecer sua obra e seus acertos, afinal, o cachê mais caro a um artista é o aplauso, o carinho e o reconhecimento.
Até a próxima!
Alguns dizem que se começa pelo Lá porque é a primeira tecla do piano, outros, porque é a única nota com frequência exata. Os mais dados aos mistérios, dizem que maçons, influenciaram na escolha para que o “G”, sétima letra, símbolo de Deus, o Grande Arquiteto do Universo, coincidisse, exatamente, com o nome “Sol”, que é o símbolo do brilho de sua luz e sabedoria. Será?
Esse sistema, usado em muitos países, sofre um problema no momento de se cantar as escalas usando o nome de cada nota - o famoso solfejo. Pois, muitos nomes de letras são dissílabos, como: Alfa, Beta, Gama... E, fazia-se necessário nomes monossilábicos, para facilitar sua entonação.
Países latinos, influenciados pela igreja, adotaram outros nomes. O Monge Guido D'arezzo, no século XII, usou a primeira sílaba de cada verso do hino a São João, em latim, para batizá-las. E, durante a época em que a Itália dominou, culturalmente, o mundo, foram enormemente difundidas.
Eis o hino: “Ut queant laxis / Resonare fibris / Mira gestorum / Famuli tuorum / Solve polluti / Labii reatum / Sancte Iohannes.” Que significa: “Para que teus grandes servos, possam ressoar claramente a maravilha dos teus feitos, limpe nossos lábios impuros, ó São João.” As notas: Ut, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e San.
Mais tarde, Giuseppe Doni sugeriu que o nome Ut, fosse trocado por Dó. Seria apenas coincidência, ser a primeira sílaba de seu sobrenome? E o San foi trocado por “S.I.”, que, na verdade, é uma sigla feita com as duas primeiras letras de Sancte Iohannes. Esses nomes seriam mais sonoros.
As notas musicais são frequências que, como as horas, depois de cumprir um ciclo, voltam ao “mesmo lugar”, porém mais agudas ou graves, dependendo da direção tomada. Saindo da frequência batizada de Lá, que é 440Hz, se chega a outro Lá, tanto subindo a 880Hz (dobro), quanto descendo a 220Hz (metade).
A essa distância damos o nome de oitava, já que, no ocidente, entre estas duas notas iguais, encontrava-se outros sete sons. Posteriormente, percebeu-se que possuíam intervalos diferentes entre si e houve a necessidade de se usar mais 5 sons, para que a oitava se dividisse em 12 partes iguais.
Se estes novos sons tivessem novos nomes, haveria uma grande confusão, já que o entendimento, a maneira de se pensar, tocar e compor, baseava-se, há séculos, em um sistema de 7 sons. Por isso, foram entendidos como acidentes, variações nas notas antigas - agora naturais - adicionados de um sobrenome.
Por exemplo, a nota entre Dó e Ré, recebe os nomes de Dó sustenido (elevado) (#) ou Ré Bemol (abaixado) (b), dependendo de qual delas se substitui ou da direção do movimento que use as duas, a natural e a acidental. Os intervalos Mi/Fá e Si/Dó, são os menores e, por isso, sem acidentes entre suas notas.
A brincadeira entre os sons e seus nomes é algo comum, pode usar formas mais técnicas ou artifícios, solfejando os nomes das notas, no meio de uma canção, preenchendo um espaço sem letra com os nomes verdadeiros dos sons emitidos. Em “Dó Ré Mi”, da “Noviça rebelde”, suas notas realmente são entoadas, apesar da letra criar outra conotação para seus nomes.
Em “Samba de uma nota só”, o nome das sete notas é apenas falado com o objetivo de fazer rima, sem, na verdade, mudar de nota: “E quem quer todas as notas / Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó / fica sempre sem nenhuma / fica numa nota só.“
Enriquez Bacalov e Sérgio Bardotti, na música “Il mio canto”, dos Saltimbancos, vertida como “Minha Canção”, por Chico Buarque, fizeram uma melodia baseada na escala de Dó, onde cada verso repete a mesma nota entre quatro e seis vezes e possui como primeira sílaba, o nome da nota que está sendo cantada:
Sobe: “Dorme a cidade / Resta um coração / Misterioso / Faz uma ilusão / Soletra um verso / Lá na melodia / Singelamente / Dolorosamente.” E desce: “Doce a música / Silenciosa / Larga meu peito / Solta-se no espaço / Faz-se certeza / Minha canção / Réstia de luz, onde / Dorme o meu irmão.”
Chico não deixa de ser gênio por não ter tido essa ideia, tampouco torna-se um, apenas, por causa dos famosos proparoxítonos do final de todos os versos da música “Construção”. Essas são apenas duas pequenas observações feitas em sua vasta obra, que tanto tem a nos impressionar, emocionar e ensinar.
Alguns amigos não gostam, que eu sublinhe que esta é uma versão. Mas tenho a certeza de que ele mesmo não quer, e nem precisa, ter o crédito pelo que não fez. É muito importante falar os nomes dos compositores e não apenas dos intérpretes ou tradutores, reconhecer sua obra e seus acertos, afinal, o cachê mais caro a um artista é o aplauso, o carinho e o reconhecimento.
Até a próxima!
terça-feira, 7 de maio de 2019
Coluna de Abril de 2019 para o Jornal Portal
Por vezes, disse, aqui na coluna, que há arte, até mesmo na maneira de se refazer ou repetir alguma coisa. É fato. Desde que haja verdade no que se diz ou na maneira de se dizer, é possível mudar sua forma, baseando-se no original.
A adaptação é uma atualização e torna o pensamento de outras épocas, mais próximo do nosso, para que as situações sejam mais inteligíveis, permitindo empatia e comunicação entre gerações distantes.
Não se trata, necessariamente, do objetivo fútil de repaginar a embalagem de um produto, que permanece o mesmo, apenas para atiçar a curiosidade do consumidor. Apesar desta ser uma estratégia muito usada atualmente, a arte é bem mais do que isso.
O grande químico Lavoisier, cunhou a célebre expressão: ”Na vida nada se cria e nada se perde, tudo se transforma.” E Eclesiastes, um pequeno livro do velho testamento, que vale a pena ler, nos adverte: “Debaixo do sol não há nada novo.”
Assim, apesar de saber que é possível apenas se copiar, percebemos que através de um olhar artístico, é possível se adaptar, transformar e transcender, somando mais criatividade, fantasia, emoção e surpresa à ideia original, óbvia ou conhecida.
Um exemplo, é o conto “Os músicos de Bremen”, de 1812, dos irmãos Grimm, no qual um burro, um cachorro, um gato e um galo, fogem dos maus tratos de seus donos, formando uma orquestra e pelo caminho, param para pedir comida e abrigo numa casa, onde estão escondidos ladrões, com muitos pertences roubados. Os amigos, juntos, enfrentam os bandidos e devolvem o tesouro, tornando-se heróis.
Além do conto, ouvi esta história narrada em verso e cantada, na adaptação feita pela coleção Disquinho, com o título: “Os quatro heróis”. Estes vinis coloridos, foram muito conhecidos e queridos pelas crianças das décadas de 1960 à 1980. Tive a oportunidade de adquirir dois baús, com, aproximadamente, uns 50 títulos, na ocasião do seu lançamento em CD. Infelizmente, creio que ainda faltem alguns...
Ele teve outra adaptação, feita na Itália, em 1976, na forma de musical, com o título “I musicanti”, que fez muito sucesso, tornando-se disco. Com letras e texto de Sergio Bardotti; música e arranjos de Luiz Enriquez Bacalov, artistas que também haviam colaborado no disco de Vinícius de Moraes chamado: “L’ Arca - canzoni per bambini”, a primeira versão musical do livro “A arca de Noé”, de 1975.
Bardotti, alguns anos antes, havia se tornado parceiro e amigo de Chico Buarque, quando verteu suas músicas de sucesso no Brasil, para o Italiano, no disco: “Per un pugno di samba”, de Chico, de 1970, lançado na Itália, na época do seu exílio.
Por causa dessa amizade, Chico pôde nos trazer, as bases do disco “I musicanti”, com todos os elementos de orquestra e arranjos, para então fazer a versão das letras para o Português, gravando, apenas, as vozes. Esta foi mais uma adaptação, bem sucedida, do conto, que aqui se chamou: “Os Saltimbancos”, em 1977.
Em 1981, o grupo de comediantes “Os trapalhões”, que na época enveredava pelo campo do cinema, fazendo diversas adaptações, com seguidos recordes de bilheteria, gravou um filme chamado: “Os Saltimbancos trapalhões”, mais uma versão do musical, que contou com algumas regravações e adição de novas músicas, todas, parcerias de Bacalov, Bardotti e Buarque.
É importante frisar que, até a época do Disquinho, não havia nada dirigido ao público infantil que o fizesse consumir, lotar cinemas e teatros ou comprar discos e álbuns de figurinha. Ele ainda não era tratado como público alvo ou nicho de mercado, como foi alguns anos depois, por um sem-fim de “artistas” de ocasião.
Fazia pouco tempo que os Beatles haviam aparecido e aquele comportamento febril, ao qual se denominava “bitolado” ou de “coqueluche” que, hoje, chamamos de “viral”, não era muito conhecido, muito menos compreendido como um fenômeno comportamental social e global.
Em contraposição a este alinhamento que se busca nos dias de hoje, é possível encontrar momentos históricos, nos quais, coube aos artistas, através de sua arte, o rompimento com a atitude e os costumes de uma época. Já que, enquanto seres e, por isso, sociedade, temos aquela, fatal, tendência à inércia.
Vítimas dela, corremos o risco de estagnar ou de querer permanecer no topo. Naquela óbvia situação em que vemos uma “estrela” querendo brilhar eternamente como tal e todos os que admiram ou não, querendo ocupar aquele lugar, por inveja ou admiração.
Na canção “Rock and Roll”, de Raul Seixas e Marcelo Nova eles dizem assim: “Já dizia Eclesiastes, há dois mil anos atrás, debaixo do sol não há nada novo, não seja tolo, meu rapaz. Mas nunca vi Beethoven fazer aquilo que Chuck Berry faz”.
Nessa verdadeira apologia à atitude questionadora, rebelde e, ao mesmo tempo, inovadora, do Rock, que em sua essência procura romper com o status quo e com toda e qualquer ideia de subjugar atitudes e pensamentos, através do medo, nossos heróis “Rauzito e Marceleza”, admitem que os dilemas do homem são sempre os mesmos, através dos séculos, mas lembram que sempre poderemos contar com nossa criatividade, para nos reinventarmos.
Não se engane, a arte pode se transformar, mas sempre é arte, nunca cópia barata, nunca um mero “copy e paste”. Um pensamento abstrato vira um desenho; uma ideia vira uma peça de teatro; uma frase se transforma em poema e um grito em canção; um movimento vira dança, uma imagem vira roteiro, uma foto vira filme e uma pedra vira estátua; barro vira vaso, roteiros viram programas de TV, linhas de sistemas trazem emoção para o computador, tablet e celular...
Sigamos no nosso dilema de "Tostines": A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Qualquer que seja a resposta, somos muito mais. A vida e a arte, vão, bem mais além, do que a imitação.
Um grande abraço e até a próxima!
quarta-feira, 3 de abril de 2019
Coluna de Março de 2019 para o Jornal Portal
Temos acesso a muita informação. E, nos dias de hoje, é difícil saber o que, realmente, é importante e relevante. Mas, neste mar de baboseiras, podemos encontrar pequenas ilhas paradisíacas e tomar conhecimento de fatos maravilhosos, que, podem ser experiências, absolutamente, desconhecidas para nós.
Para quem nasceu sem nenhuma limitação física ou mental, é difícil perceber que coisas simples, do dia-a-dia, possam emocionar tanto. Mas ao assistir a reação de daltônicos ao ver algumas cores pela primeira vez ou de pessoas com problemas de audição, ouvindo os primeiros sons, é possível ter noção...
Imagine a vida sem som... Uma festa sem música... Um filme sem trilha sonora... Não seria impossível, mas para quem já teve a experiência completa, perder parcial ou totalmente a audição seria muito perturbador, principalmente para um músico ou compositor, como retrata o filme “O segredo de Beethoven”.
Não confunda as informações: Uma pessoa surda não percebe os sons que seriam captados pelos seus ouvidos, mas, através do tato, percebe as notas graves e, através delas - o ritmo - que, por ser independente, está presente no esporte, na física, na engenharia... E a música se desdobra sobre os BPM.
Por isso, os surdos podem dançar. Usando o sentido do tato para perceber o ritmo e, através dele, se conectar à música. A vibração da caixa de som, normalmente, voltada para o chão, pode dar a eles a referência que necessitam. Isso é relatado por professores do INES, em Laranjeiras.
Recentemente, uma propaganda do Boticário, apresentou um menino surdo participando do coro da sua escola, traduzindo a música “Stand by me” para a linguagem de libras. O comercial teve um viés mais inclusivo, mas cumpriu o papel de divulgar um pouco deste processo para muitas pessoas.
Os órgãos de tubo, construídos nas igrejas do período Medieval, possuem notas tão graves, que a audição humana não pode alcançar, mas quando tocadas, fazem vibrar os vidros, as estruturas da construção e do peito, que ressoa e através do tato, faz com que os fiéis tenham a sensação da “presença de Deus”.
Apesar das similaridades de audição e tato, que nos aproxima dos outros mamíferos. A elaboração do ritmo e das frequências, formando frases, melodias e harmonia, nos levou a transcender o som e chegar à música. Que através destes sentidos, nos leva às sensações de êxtase, tristeza, alegria, melancolia...
É a forma mais antiga de arte, com linguagem subjetiva, metafórica, passível de interpretações múltiplas e que tem um DNA universal. Diferente das artes visuais, a música, a poesia e os contos, precisam apenas de imaginação, ritmo e som para acontecer. Temos a música presente em nossas vidas, diariamente.
Através da arte, exorcizamos nossos fantasmas, não apenas vendo, ouvindo e sentindo, mas, também, gritando, cantando, pulando e dançando. E o artista é o bicho que faz a arte, como a aranha faz a teia e vive do que tece.
Disse noutra feita, que o ser humano precisa da arte, quase como uma necessidade fisiológica. E é verdade! Da mesma forma que a vontade, pode se tornar necessidade, principalmente para quem não pode matá-la. Saber que podemos realizar algo, na hora que quisermos, já nos sacia um bocado.
Igual ao menino na porta da lanchonete, que pede um lanche. Muitas vezes, não está passando fome, mas tem vontade e não pode comer um joelho e um refrigerante. E o desejo o impele a correr atrás. Ele não quer quentinha, que mata a fome, nem água que mata a sede... Quer matar a vontade.
É claro que onde há fome e miséria, fica difícil pensar em vontade ou arte. Aldir Blanc e João Bosco, já diziam na música “O ronco da cuíca”: “A cuíca roncou de raiva, roncou de fome. A fome tem que ter raiva pra interromper, a raiva é a fome de interromper. A fome e a raiva é coisa dos home.”
Depois de matar quem estava te matando, você passa a ter vontade de quê? A música “Comida” dos Titãs Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, complementa essa fome, que é de comida, de diversão e de arte. E que a fome é de comer, mas, também de fazer amor. Somos plurais...
“A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor, a gente não quer só comer a gente quer prazer para aliviar a dor.”
E essa dor, citada em todas as línguas e religiões, que nos acompanha há milênios, o que será? De onde vem? Por que habita em nós? É difícil responder, mas é fácil perceber, que a arte é um belo tratamento. Sem contra-indicações.
Com a esperança de que o principal objetivo de todos, neste Carnaval, será a música, musa única e, posteriormente, com o mesmo afinco, se dedicarão à Quaresma, me despeço desejando muita paz, harmonia e pergunto: você tem fome de quê?
Até a próxima!
Para quem nasceu sem nenhuma limitação física ou mental, é difícil perceber que coisas simples, do dia-a-dia, possam emocionar tanto. Mas ao assistir a reação de daltônicos ao ver algumas cores pela primeira vez ou de pessoas com problemas de audição, ouvindo os primeiros sons, é possível ter noção...
Imagine a vida sem som... Uma festa sem música... Um filme sem trilha sonora... Não seria impossível, mas para quem já teve a experiência completa, perder parcial ou totalmente a audição seria muito perturbador, principalmente para um músico ou compositor, como retrata o filme “O segredo de Beethoven”.
Não confunda as informações: Uma pessoa surda não percebe os sons que seriam captados pelos seus ouvidos, mas, através do tato, percebe as notas graves e, através delas - o ritmo - que, por ser independente, está presente no esporte, na física, na engenharia... E a música se desdobra sobre os BPM.
Por isso, os surdos podem dançar. Usando o sentido do tato para perceber o ritmo e, através dele, se conectar à música. A vibração da caixa de som, normalmente, voltada para o chão, pode dar a eles a referência que necessitam. Isso é relatado por professores do INES, em Laranjeiras.
Recentemente, uma propaganda do Boticário, apresentou um menino surdo participando do coro da sua escola, traduzindo a música “Stand by me” para a linguagem de libras. O comercial teve um viés mais inclusivo, mas cumpriu o papel de divulgar um pouco deste processo para muitas pessoas.
Os órgãos de tubo, construídos nas igrejas do período Medieval, possuem notas tão graves, que a audição humana não pode alcançar, mas quando tocadas, fazem vibrar os vidros, as estruturas da construção e do peito, que ressoa e através do tato, faz com que os fiéis tenham a sensação da “presença de Deus”.
Apesar das similaridades de audição e tato, que nos aproxima dos outros mamíferos. A elaboração do ritmo e das frequências, formando frases, melodias e harmonia, nos levou a transcender o som e chegar à música. Que através destes sentidos, nos leva às sensações de êxtase, tristeza, alegria, melancolia...
É a forma mais antiga de arte, com linguagem subjetiva, metafórica, passível de interpretações múltiplas e que tem um DNA universal. Diferente das artes visuais, a música, a poesia e os contos, precisam apenas de imaginação, ritmo e som para acontecer. Temos a música presente em nossas vidas, diariamente.
Através da arte, exorcizamos nossos fantasmas, não apenas vendo, ouvindo e sentindo, mas, também, gritando, cantando, pulando e dançando. E o artista é o bicho que faz a arte, como a aranha faz a teia e vive do que tece.
Disse noutra feita, que o ser humano precisa da arte, quase como uma necessidade fisiológica. E é verdade! Da mesma forma que a vontade, pode se tornar necessidade, principalmente para quem não pode matá-la. Saber que podemos realizar algo, na hora que quisermos, já nos sacia um bocado.
Igual ao menino na porta da lanchonete, que pede um lanche. Muitas vezes, não está passando fome, mas tem vontade e não pode comer um joelho e um refrigerante. E o desejo o impele a correr atrás. Ele não quer quentinha, que mata a fome, nem água que mata a sede... Quer matar a vontade.
É claro que onde há fome e miséria, fica difícil pensar em vontade ou arte. Aldir Blanc e João Bosco, já diziam na música “O ronco da cuíca”: “A cuíca roncou de raiva, roncou de fome. A fome tem que ter raiva pra interromper, a raiva é a fome de interromper. A fome e a raiva é coisa dos home.”
Depois de matar quem estava te matando, você passa a ter vontade de quê? A música “Comida” dos Titãs Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto, complementa essa fome, que é de comida, de diversão e de arte. E que a fome é de comer, mas, também de fazer amor. Somos plurais...
“A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor, a gente não quer só comer a gente quer prazer para aliviar a dor.”
E essa dor, citada em todas as línguas e religiões, que nos acompanha há milênios, o que será? De onde vem? Por que habita em nós? É difícil responder, mas é fácil perceber, que a arte é um belo tratamento. Sem contra-indicações.
Com a esperança de que o principal objetivo de todos, neste Carnaval, será a música, musa única e, posteriormente, com o mesmo afinco, se dedicarão à Quaresma, me despeço desejando muita paz, harmonia e pergunto: você tem fome de quê?
Até a próxima!
sábado, 2 de março de 2019
Coluna de Fevereiro de 2019 para o Jornal Portal
Marcos Paiva, meu amigo, compositor de mão cheia, letrou a melodia de um
partido alto, do saudoso Wilson Moreira, gravada por Zeca Pagodinho, no
disco Boêmio Feliz, de 1989, que no refrão, diz assim: “Vou te contar
rapaz, tem malandro enganando demais, no shopping samba o barato está no
cartaz...”
Em trinta anos, essa crítica ao samba, pôde ser generalizada à todos os segmentos da vida humana. Entenda: não há nenhum problema com um shopping que tem de tudo, a todo preço. Mas com o que só tem os mesmos “abacaxis”, com preços baseados em seus embrulhos - tenha dó!
Como sempre afirmo aqui na coluna, a humanidade sofre de uma mazela seríssima: tudo virou mercado, desde o pão à medicina. E esta maldição é contaminante. A urgência de um lucro, que justifica qualquer meio, de fato, é responsável por um grande declínio na nossa saúde física e mental, ou qualidade de vida.
Com a arte não é diferente, afinal, ela é parte do mundo que vivemos, feita por pessoas e para pessoas, que sofrem do mesmo mal. Por isso, entrou na dança, tornou-se palatável, se adequou, encaixou e enlatou.
Tornou-se um “café da manhã continental”, sem muitos condimentos ou temperos de costume local, apenas: pão, ovo, salsicha, café, iogurte e mamão. Algo que não representa nada específico de ninguém e de lugar nenhum...
Esta crítica não é feita, apenas, aos que vivem de arte, mas, também, ao gosto, da maioria das pessoas, por ela. Procuram, sempre, algo mais simplório possível, com a desculpa de que precisam se desligar do estresse e, por isso, não querem nada “pesado”, que as obrigue a pensar ou refletir.
O problema já começa aí. Pois, é justamente o que é capaz de nos envolver que pode nos fazer concentrar em outra coisa e mudar o foco. Nos dando a oportunidade de voltar à vida cotidiana, com outras perspectivas e percepções sobre nossos problemas e a forma mais producente de solucioná-los ou lidar com eles.
O status “VIP”, também é uma armadilha: serviços sem valor e custo alto; porcarias de grife, xing ling, de embrulho lindo e logotipo bem grande; combo do cinema, com pipoca de milho transgênico, glutamato monossódico, refrigerante de glicose e preço de iguaria... Tudo, exclusivamente, para todos que pagarem.
Para difundir esses conceitos, aproveitando que os jovens de hoje, praticamente, fazem tudo pela internet, foi criada a publicidade direcionada, que se utiliza dos próprios interesses e histórico de pesquisas do usuário como base, para de forma “espontânea”, impulsionar a engrenagem. É o tal do algoritmo.
É preciso que se entenda, que não basta alguém dizer que alguma coisa “É”, é preciso que ela, de fato, “SEJA”. E, assim, voltarmos a ter a certeza de que não basta que as coisas nos sejam agradáveis, é mais importante e necessário que nos façam bem. O mal que, hoje, nos assola é comparável ao “paladar infantil”.
Nesse caso, devemos saber que nem sempre é possível unir saudável e agradável, mas que o paladar também é formado, ou seja, o que oferecemos às crianças, influencia na formação de seu gosto, fazendo com que se acostumem e gostem de sabores que, a princípio, não agradariam tão facilmente.
O gosto se transforma e isso é comum. Porém, seguindo constatações estatísticas, se investe pesado na produção de “alimentos” e de “arte” com a filosofia do palatável, que facilita sua entrada, propagação e permanência no mercado.
A indústria do entretenimento se farta. Oferecendo, sempre, mais do mesmo, de olho nas “tendências”, criadas ou incentivadas por ela mesma. Ganhando com o ciclo de oferta e demanda, que faz girar com muita propaganda e ideias vazias, difundidas por seus “formadores de opinião”.
Outra coisa que percebo, claramente, é a frequência que, supostamente, deveríamos consumir esta arte “leve e sem contra-indicações”: doses diárias ingeridas com álcool, para matar a tristeza... - Minha gente! Qual o efeito de um cafezinho, em alguém que toma muitos, todos os dias?
Para sentir efeito, é preciso uma pausa. É preciso tempo. De nos permitirmos dar um tempo. Não fazer nada. Não escutar nada. Ouvir o silêncio e, dele, nossos pensamentos. Observando a natureza... Como disse Caetano Veloso, sobre o que sua mãe, Dona Canô, mais gostava de fazer - contemplar a existência!
Daí, com certeza podem vir as soluções. E não do ritmo frenético ao qual nos habituamos a viver. Se há o lado bom, na velocidade em que poderíamos resolver problemas, há o lado ruim, da quantidade em que se multiplicam. Não se trata de uma crítica vazia à indústria, mas à maneira vazia de usá-la.
Apesar disso tudo, na primeira oportunidade que têm, as vítimas se utilizam dos mesmos pensamentos, argumentos e truques, para, também, poder dar uma mordida e aproveitar enquanto é tempo, afinal, carpe diem!
Se não prestarmos atenção e descermos do salto de evoluídos e sofisticados, cairemos por terra, pois, em declínio já estamos há tempos. Viver como se não houvesse amanhã é não fazer nada de que possamos nos arrepender e, não, comer, beber e consumir insaciavelmente...
É aproveitar o que a vida nos oferece, saber aceitar as coisas boas e ruins, não perder tempo com mesquinharias, usar o livre arbítrio para escolher ficar em paz, sintonizado em boas frequências. Afinal, se cada um dá o que tem, só poderemos emanar boas vibrações, se vibrarmos da mesma forma.
Até a próxima! Muita luz e paz!
Em trinta anos, essa crítica ao samba, pôde ser generalizada à todos os segmentos da vida humana. Entenda: não há nenhum problema com um shopping que tem de tudo, a todo preço. Mas com o que só tem os mesmos “abacaxis”, com preços baseados em seus embrulhos - tenha dó!
Como sempre afirmo aqui na coluna, a humanidade sofre de uma mazela seríssima: tudo virou mercado, desde o pão à medicina. E esta maldição é contaminante. A urgência de um lucro, que justifica qualquer meio, de fato, é responsável por um grande declínio na nossa saúde física e mental, ou qualidade de vida.
Com a arte não é diferente, afinal, ela é parte do mundo que vivemos, feita por pessoas e para pessoas, que sofrem do mesmo mal. Por isso, entrou na dança, tornou-se palatável, se adequou, encaixou e enlatou.
Tornou-se um “café da manhã continental”, sem muitos condimentos ou temperos de costume local, apenas: pão, ovo, salsicha, café, iogurte e mamão. Algo que não representa nada específico de ninguém e de lugar nenhum...
Esta crítica não é feita, apenas, aos que vivem de arte, mas, também, ao gosto, da maioria das pessoas, por ela. Procuram, sempre, algo mais simplório possível, com a desculpa de que precisam se desligar do estresse e, por isso, não querem nada “pesado”, que as obrigue a pensar ou refletir.
O problema já começa aí. Pois, é justamente o que é capaz de nos envolver que pode nos fazer concentrar em outra coisa e mudar o foco. Nos dando a oportunidade de voltar à vida cotidiana, com outras perspectivas e percepções sobre nossos problemas e a forma mais producente de solucioná-los ou lidar com eles.
O status “VIP”, também é uma armadilha: serviços sem valor e custo alto; porcarias de grife, xing ling, de embrulho lindo e logotipo bem grande; combo do cinema, com pipoca de milho transgênico, glutamato monossódico, refrigerante de glicose e preço de iguaria... Tudo, exclusivamente, para todos que pagarem.
Para difundir esses conceitos, aproveitando que os jovens de hoje, praticamente, fazem tudo pela internet, foi criada a publicidade direcionada, que se utiliza dos próprios interesses e histórico de pesquisas do usuário como base, para de forma “espontânea”, impulsionar a engrenagem. É o tal do algoritmo.
É preciso que se entenda, que não basta alguém dizer que alguma coisa “É”, é preciso que ela, de fato, “SEJA”. E, assim, voltarmos a ter a certeza de que não basta que as coisas nos sejam agradáveis, é mais importante e necessário que nos façam bem. O mal que, hoje, nos assola é comparável ao “paladar infantil”.
Nesse caso, devemos saber que nem sempre é possível unir saudável e agradável, mas que o paladar também é formado, ou seja, o que oferecemos às crianças, influencia na formação de seu gosto, fazendo com que se acostumem e gostem de sabores que, a princípio, não agradariam tão facilmente.
O gosto se transforma e isso é comum. Porém, seguindo constatações estatísticas, se investe pesado na produção de “alimentos” e de “arte” com a filosofia do palatável, que facilita sua entrada, propagação e permanência no mercado.
A indústria do entretenimento se farta. Oferecendo, sempre, mais do mesmo, de olho nas “tendências”, criadas ou incentivadas por ela mesma. Ganhando com o ciclo de oferta e demanda, que faz girar com muita propaganda e ideias vazias, difundidas por seus “formadores de opinião”.
Outra coisa que percebo, claramente, é a frequência que, supostamente, deveríamos consumir esta arte “leve e sem contra-indicações”: doses diárias ingeridas com álcool, para matar a tristeza... - Minha gente! Qual o efeito de um cafezinho, em alguém que toma muitos, todos os dias?
Para sentir efeito, é preciso uma pausa. É preciso tempo. De nos permitirmos dar um tempo. Não fazer nada. Não escutar nada. Ouvir o silêncio e, dele, nossos pensamentos. Observando a natureza... Como disse Caetano Veloso, sobre o que sua mãe, Dona Canô, mais gostava de fazer - contemplar a existência!
Daí, com certeza podem vir as soluções. E não do ritmo frenético ao qual nos habituamos a viver. Se há o lado bom, na velocidade em que poderíamos resolver problemas, há o lado ruim, da quantidade em que se multiplicam. Não se trata de uma crítica vazia à indústria, mas à maneira vazia de usá-la.
Apesar disso tudo, na primeira oportunidade que têm, as vítimas se utilizam dos mesmos pensamentos, argumentos e truques, para, também, poder dar uma mordida e aproveitar enquanto é tempo, afinal, carpe diem!
Se não prestarmos atenção e descermos do salto de evoluídos e sofisticados, cairemos por terra, pois, em declínio já estamos há tempos. Viver como se não houvesse amanhã é não fazer nada de que possamos nos arrepender e, não, comer, beber e consumir insaciavelmente...
É aproveitar o que a vida nos oferece, saber aceitar as coisas boas e ruins, não perder tempo com mesquinharias, usar o livre arbítrio para escolher ficar em paz, sintonizado em boas frequências. Afinal, se cada um dá o que tem, só poderemos emanar boas vibrações, se vibrarmos da mesma forma.
Até a próxima! Muita luz e paz!
terça-feira, 5 de fevereiro de 2019
Coluna de Janeiro de 2019 para o Jornal Portal
Durante toda a adolescência, cumpri, fielmente, um ritual: chegar da escola, almoçar, colocar um LP para tocar e fazer uma sesta. Aos poucos, fui descobrindo que absorvemos as músicas de forma inconsciente, como se fosse por osmose.
Essa capacidade, vai tornando-se um tipo de programação, cria em nós uma tendência a gostar do que é mais familiar, uma predisposição ao que conseguimos prever e presumimos ter controle, reafirmando as certezas que já temos.
Por isso, também, acaba sendo uma barreira, um filtro, para coisas diferentes, que desvia nossa atenção, levando até, ao sono. E a taxar o novo de chato, sem graça ou sem nexo. Seria um resquício tribal de um esforço para ser aceito pelo grupo, negando inicialmente, a tudo que não reflete seus valores e tradições?
Daí, surge a procura por mais do mesmo. Uns ouvem cada vez mais música boa, outros pagam, cada vez mais caro, para ouvir a ruim. Algumas situações, porém, nos fazem deparar com o diferente e por curiosidade ou necessidade, nos atirar em mares nunca dantes navegados, dos quais acabamos por gostar.
Toda música, um dia, foi inédita. Mas, ao saber de alguma, que só nós não conhecíamos, nos aflige uma sensação de enorme perda de tempo: como nunca tivemos notícia de que existia? Mas vivemos em inércia. Segundo os físicos, um estado natural de tudo que existe, inclusive de nossa psique e comportamento.
É importante ter consciência deste aspecto da nossa natureza, para sermos vigilantes, não permitindo que outros assumam o leme de nossos ouvidos ou vidas. Não podemos ser escravos de outras vontades, mas, também, não devemos sucumbir a nossa própria ignorância e estar acomodado nessa condição.
Estar com o leme nas mãos, não significa ter controle sobre nada, a não ser, sobre nós mesmos. Agir segundo nosso livre arbítrio não fará a viagem mais calma ou as coisas, mais fáceis. Apenas nos dará a certeza de que ninguém está vivendo por nós, afinal, apesar de o mercado ditar o ritmo e as regras, somente, cada indivíduo pode saber, de verdade, o que cala e o que fala em seu íntimo.
Existe uma praxe de “resignificar” ideias e palavras, através de um mundo paralelo que distorce a realidade, atribui valores, aponta condutas, une água e óleo, na busca de criar uma falsa sensação de satisfação, condicionada ao consumo.
Como um senado que distorce a constituição e coloca o legal acima do moral. Haveria brechas na lei da gravidade terrestre? Ou perante ela, toda humanidade tem apenas uma experiência? Apesar da aparente normalidade, devemos perceber que qualquer condição que não abrange a todos é, sempre, questionável.
O marketing usa o processo subconsciente de aprendizagem, a capacidade de adaptação humana (ao luxo e ao lixo) e a tendência à inércia, como suas bases, estimulando o crescimento desse desmedido consumo supérfluo. Porém, podemos nos apropriar desse conhecimento e usá-lo para entender nossos dramas.
Vivemos numa cultura de muita pressão, paga com recompensas vazias que acabam por nos descolar da realidade. “Eu também sou filho de Deus, eu mereço”. Temos que olhar para os lados e procurar enxergar as armadilhas e venenos que nos são vendidos como poção mágica, antídoto ou remédio urgente.
Muitas vezes, agimos como viciados, de tão mal acostumados que passamos a ser. O refrigerante que era tomado nas datas comemorativas, quatro vezes ao ano, aniversário, Natal, etc, passou aos finais de semana e, depois, a toda refeição. Passou a ser um hábito, um mau hábito. Como o álcool e as drogas.
Não é preciso ser músico, para gostar de música, nem pintor, para gostar de quadros. Mas, é preciso tirar os óculos (que criamos) e nos fazem enxergar em preto e branco e compreender que a natureza tem muitas cores. E, não é razoável, aceitarmos ser monocromáticos, quando há tanta diversidade.
A programação cultural das cidades, rádios e televisão, aberta ou a cabo é muito rasa e limitada ao que vende. A cultura não é fomentada, pois não é considerada investimento. Até, nossas instituições públicas, patrocinam quem já não precisa... Sempre os mesmos, por todos os lados, canais e frequências...
Deveríamos ter mais opções e espaço. Cada pessoa tem um gosto único, que ainda mudará durante as fases da vida, por isso, carece de diferentes estímulos, em diferentes épocas. É uma demanda variada e natural, uma necessidade física e mental. Precisamos da arte, como do ar e, o artista, de fazê-la.
Para ter um gosto apurado, é preciso ter experiência. Experimentar, conhecer e viver. Ouvir música Clássica, Pop, Rock, Reggae, Samba... Desconfiar do que é oferecido de bandeja e, também, do que se diz alternativo ou contracultura.
Duvidando de tudo, como Descartes, só não duvidaremos de que duvidamos. Se duvidamos, pensamos e, se pensamos, logo, existimos. Liberdade é a escolha do caminho - quando possível - e da forma como vamos reagir ao que não escolhemos. Diante das pedras, lamentar ou usá-las de degrau para transcender?
Desejo a todos um feliz ano novo, com muita saúde, paz e ótimas escolhas!
Até a próxima!
Essa capacidade, vai tornando-se um tipo de programação, cria em nós uma tendência a gostar do que é mais familiar, uma predisposição ao que conseguimos prever e presumimos ter controle, reafirmando as certezas que já temos.
Por isso, também, acaba sendo uma barreira, um filtro, para coisas diferentes, que desvia nossa atenção, levando até, ao sono. E a taxar o novo de chato, sem graça ou sem nexo. Seria um resquício tribal de um esforço para ser aceito pelo grupo, negando inicialmente, a tudo que não reflete seus valores e tradições?
Daí, surge a procura por mais do mesmo. Uns ouvem cada vez mais música boa, outros pagam, cada vez mais caro, para ouvir a ruim. Algumas situações, porém, nos fazem deparar com o diferente e por curiosidade ou necessidade, nos atirar em mares nunca dantes navegados, dos quais acabamos por gostar.
Toda música, um dia, foi inédita. Mas, ao saber de alguma, que só nós não conhecíamos, nos aflige uma sensação de enorme perda de tempo: como nunca tivemos notícia de que existia? Mas vivemos em inércia. Segundo os físicos, um estado natural de tudo que existe, inclusive de nossa psique e comportamento.
É importante ter consciência deste aspecto da nossa natureza, para sermos vigilantes, não permitindo que outros assumam o leme de nossos ouvidos ou vidas. Não podemos ser escravos de outras vontades, mas, também, não devemos sucumbir a nossa própria ignorância e estar acomodado nessa condição.
Estar com o leme nas mãos, não significa ter controle sobre nada, a não ser, sobre nós mesmos. Agir segundo nosso livre arbítrio não fará a viagem mais calma ou as coisas, mais fáceis. Apenas nos dará a certeza de que ninguém está vivendo por nós, afinal, apesar de o mercado ditar o ritmo e as regras, somente, cada indivíduo pode saber, de verdade, o que cala e o que fala em seu íntimo.
Existe uma praxe de “resignificar” ideias e palavras, através de um mundo paralelo que distorce a realidade, atribui valores, aponta condutas, une água e óleo, na busca de criar uma falsa sensação de satisfação, condicionada ao consumo.
Como um senado que distorce a constituição e coloca o legal acima do moral. Haveria brechas na lei da gravidade terrestre? Ou perante ela, toda humanidade tem apenas uma experiência? Apesar da aparente normalidade, devemos perceber que qualquer condição que não abrange a todos é, sempre, questionável.
O marketing usa o processo subconsciente de aprendizagem, a capacidade de adaptação humana (ao luxo e ao lixo) e a tendência à inércia, como suas bases, estimulando o crescimento desse desmedido consumo supérfluo. Porém, podemos nos apropriar desse conhecimento e usá-lo para entender nossos dramas.
Vivemos numa cultura de muita pressão, paga com recompensas vazias que acabam por nos descolar da realidade. “Eu também sou filho de Deus, eu mereço”. Temos que olhar para os lados e procurar enxergar as armadilhas e venenos que nos são vendidos como poção mágica, antídoto ou remédio urgente.
Muitas vezes, agimos como viciados, de tão mal acostumados que passamos a ser. O refrigerante que era tomado nas datas comemorativas, quatro vezes ao ano, aniversário, Natal, etc, passou aos finais de semana e, depois, a toda refeição. Passou a ser um hábito, um mau hábito. Como o álcool e as drogas.
Não é preciso ser músico, para gostar de música, nem pintor, para gostar de quadros. Mas, é preciso tirar os óculos (que criamos) e nos fazem enxergar em preto e branco e compreender que a natureza tem muitas cores. E, não é razoável, aceitarmos ser monocromáticos, quando há tanta diversidade.
A programação cultural das cidades, rádios e televisão, aberta ou a cabo é muito rasa e limitada ao que vende. A cultura não é fomentada, pois não é considerada investimento. Até, nossas instituições públicas, patrocinam quem já não precisa... Sempre os mesmos, por todos os lados, canais e frequências...
Deveríamos ter mais opções e espaço. Cada pessoa tem um gosto único, que ainda mudará durante as fases da vida, por isso, carece de diferentes estímulos, em diferentes épocas. É uma demanda variada e natural, uma necessidade física e mental. Precisamos da arte, como do ar e, o artista, de fazê-la.
Para ter um gosto apurado, é preciso ter experiência. Experimentar, conhecer e viver. Ouvir música Clássica, Pop, Rock, Reggae, Samba... Desconfiar do que é oferecido de bandeja e, também, do que se diz alternativo ou contracultura.
Duvidando de tudo, como Descartes, só não duvidaremos de que duvidamos. Se duvidamos, pensamos e, se pensamos, logo, existimos. Liberdade é a escolha do caminho - quando possível - e da forma como vamos reagir ao que não escolhemos. Diante das pedras, lamentar ou usá-las de degrau para transcender?
Desejo a todos um feliz ano novo, com muita saúde, paz e ótimas escolhas!
Até a próxima!
sábado, 1 de dezembro de 2018
Coluna de Dezembro de 2018 para o Jornal Portal
Cursando psicologia, tive a oportunidade de estudar um pouco sobre
dinâmica de grupo. Que busca ser uma ferramenta para que os
profissionais, possam visualizar como se dão as relações entre pessoas
de um grupo e possam buscar meios de revitalizá-las, conscientizando os
envolvidos, através de atividades.
Essas atividades, que podem ser trabalhos, jogos colaborativos, entre outras, buscam identificar conflitos e fazer o próprio grupo compreender seus motivos, analisando, criando consciência e discutindo formas de solucioná-los.
Acredito que esta forma analógica de aprendizado funciona muito bem, porque enxergo na natureza inúmeras metáforas. Quanto mais aprofundamos, mais podemos observar tais analogias, que vem desde os números Fi e Pi, passando pelo modelo atômico, a gravidade, os astros, sistemas solares e galáxias.
A educação finlandesa, tão em voga, que prefere preparar os alunos para vida e não para as provas, baseia-se nas analogias da natureza e na forma como nós, que somos parte dela, precisamos estruturar nossos pensamentos para poder compreendê-la, da forma que nos é possível, já cientes de nossa falibilidade.
John Rutter, maestro e compositor de música sacra para coral, defende a importância da existência dos corais em escolas, igrejas e entidades de todo o tipo, justamente, devido à força simbólica que a música, vivida através do canto têm, como reforço positivo, ou círculo virtuoso.
Ele vê a música como uma grande árvore, no centro da humanidade, com galhos estendidos em todas às direções, capaz de nos alimentar de valores cada vez mais sublimes, que vão além dela própria, e só nos engrandecem.
Saímos renovados depois de passar algumas horas cantando em grupo, vivenciando a harmonia e esquecendo nossos problemas. Cantar pode transformar dias ruins, fases ruins e, até mesmo, vidas ruins, através do simples fato de realizar algo em grupo, revelando que se envolver, é a verdadeira vocação humana.
Os políticos e educadores deveriam estar atentos aos fenômenos da música que nos faz transcender e ensina a viver através de sua prática e, na visão do maestro, o canto coral seria a ferramenta mais poderosa e, porque não, a melhor dinâmica de grupo. Por isso, deveria gerar interesse e receber investimento.
Um álbum é o resultado de horas de criação, gravação e ensaio, trabalho que une música, músicos, técnicos e tecnologia e, assim como um filme, pode nos levar a resultados incríveis, desde que se consiga vislumbrá-los para, depois, tentar transformá-lo em realidade.
Uma apresentação ou show, também é fruto de criação e ensaio, precisa de músicos, técnicos e de tecnologia, porém, depende do que seja passível de se executar ao vivo. Muitas vezes não é possível repetir o que foi feito no estúdio, em sucessivas camadas de gravações.
Uma orquestra, depende dos músicos e de seus instrumentos, das horas de criação e ensaio, mas não precisa de tecnologia, nem de técnicos para que possa se apresentar.
Um coral, depende das horas de criação e ensaio e, nele podemos ouvir ritmo, melodia e harmonia, em arranjos complexos, provando que os instrumentos, são, apenas ferramentas, através das quais, nos expressamos.
Este exercício de desconstruir a noção contemporânea do que chamamos de música, é necessário para que possamos refletir e entender que não é preciso nada, além de seres humanos (em grupo), para que ela exista e possa ser executada. É o formato mais natural da música que vem de dentro de nós.
Mas o coral não é apenas isso. Ele representa, tudo o que deveríamos ser como sociedade: atentos a harmonia, conscientes de que nossa parte, por mais simples que pareça, tem efeito no resultado final. Mantendo-nos motivados, sempre, a focar no objetivo comum a alcançar.
Perceber que é fundamental ajudar quem tem mais dificuldade, com a humildade de quem já errou e com a certeza, trazida pela experiência, de que, só em grupo, será possível ganhar, pois, ao contrário do esporte, não há pódio. Ou todos vencem ou todos perdem e se não pulsarmos juntos, o arranjo não funciona.
Então, compreendemos que um coral realiza seu trabalho, quando esse propósito maior, coletivo e universal nos guia. Depois do acorde final, temos a certeza da beleza da canção, do arranjo, do trabalho, do companheirismo, da unidade, do resultado apresentado e experimentado por cada indivíduo e pelo grupo.
“Be thou my vision” de John Rutter and Cambrige Singers, pode ser facilmente encontrado na rede e é um disco lindíssimo. Tem tudo a ver com as festas de fim de ano, ouçam sem moderação! E manerem nos excessos!
Com a esperança de que seremos, cada vez mais, um verdadeiro coral:
Feliz Natal e até próxima!
Essas atividades, que podem ser trabalhos, jogos colaborativos, entre outras, buscam identificar conflitos e fazer o próprio grupo compreender seus motivos, analisando, criando consciência e discutindo formas de solucioná-los.
Acredito que esta forma analógica de aprendizado funciona muito bem, porque enxergo na natureza inúmeras metáforas. Quanto mais aprofundamos, mais podemos observar tais analogias, que vem desde os números Fi e Pi, passando pelo modelo atômico, a gravidade, os astros, sistemas solares e galáxias.
A educação finlandesa, tão em voga, que prefere preparar os alunos para vida e não para as provas, baseia-se nas analogias da natureza e na forma como nós, que somos parte dela, precisamos estruturar nossos pensamentos para poder compreendê-la, da forma que nos é possível, já cientes de nossa falibilidade.
John Rutter, maestro e compositor de música sacra para coral, defende a importância da existência dos corais em escolas, igrejas e entidades de todo o tipo, justamente, devido à força simbólica que a música, vivida através do canto têm, como reforço positivo, ou círculo virtuoso.
Ele vê a música como uma grande árvore, no centro da humanidade, com galhos estendidos em todas às direções, capaz de nos alimentar de valores cada vez mais sublimes, que vão além dela própria, e só nos engrandecem.
Saímos renovados depois de passar algumas horas cantando em grupo, vivenciando a harmonia e esquecendo nossos problemas. Cantar pode transformar dias ruins, fases ruins e, até mesmo, vidas ruins, através do simples fato de realizar algo em grupo, revelando que se envolver, é a verdadeira vocação humana.
Os políticos e educadores deveriam estar atentos aos fenômenos da música que nos faz transcender e ensina a viver através de sua prática e, na visão do maestro, o canto coral seria a ferramenta mais poderosa e, porque não, a melhor dinâmica de grupo. Por isso, deveria gerar interesse e receber investimento.
Um álbum é o resultado de horas de criação, gravação e ensaio, trabalho que une música, músicos, técnicos e tecnologia e, assim como um filme, pode nos levar a resultados incríveis, desde que se consiga vislumbrá-los para, depois, tentar transformá-lo em realidade.
Uma apresentação ou show, também é fruto de criação e ensaio, precisa de músicos, técnicos e de tecnologia, porém, depende do que seja passível de se executar ao vivo. Muitas vezes não é possível repetir o que foi feito no estúdio, em sucessivas camadas de gravações.
Uma orquestra, depende dos músicos e de seus instrumentos, das horas de criação e ensaio, mas não precisa de tecnologia, nem de técnicos para que possa se apresentar.
Um coral, depende das horas de criação e ensaio e, nele podemos ouvir ritmo, melodia e harmonia, em arranjos complexos, provando que os instrumentos, são, apenas ferramentas, através das quais, nos expressamos.
Este exercício de desconstruir a noção contemporânea do que chamamos de música, é necessário para que possamos refletir e entender que não é preciso nada, além de seres humanos (em grupo), para que ela exista e possa ser executada. É o formato mais natural da música que vem de dentro de nós.
Mas o coral não é apenas isso. Ele representa, tudo o que deveríamos ser como sociedade: atentos a harmonia, conscientes de que nossa parte, por mais simples que pareça, tem efeito no resultado final. Mantendo-nos motivados, sempre, a focar no objetivo comum a alcançar.
Perceber que é fundamental ajudar quem tem mais dificuldade, com a humildade de quem já errou e com a certeza, trazida pela experiência, de que, só em grupo, será possível ganhar, pois, ao contrário do esporte, não há pódio. Ou todos vencem ou todos perdem e se não pulsarmos juntos, o arranjo não funciona.
Então, compreendemos que um coral realiza seu trabalho, quando esse propósito maior, coletivo e universal nos guia. Depois do acorde final, temos a certeza da beleza da canção, do arranjo, do trabalho, do companheirismo, da unidade, do resultado apresentado e experimentado por cada indivíduo e pelo grupo.
“Be thou my vision” de John Rutter and Cambrige Singers, pode ser facilmente encontrado na rede e é um disco lindíssimo. Tem tudo a ver com as festas de fim de ano, ouçam sem moderação! E manerem nos excessos!
Com a esperança de que seremos, cada vez mais, um verdadeiro coral:
Feliz Natal e até próxima!
Coluna de Novembro de 2018 para o Jornal Portal
A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Essa questão filosófica e retórica, não precisa de resposta, muito menos, de acerto. Afinal, apenas os debates que suscita, por si só, já podem ser muito esclarecedores e edificantes. Servindo, até, de fagulha para grandes obras. Como em Hamlet: ser ou não ser?
A arte, num sentido mais simples, é o fruto de vivências. Que geram sentimentos, expressos por quem passa por alguma situação, seja vivendo, convivendo, observando ou interpretando, a seu modo, com base, também, nas suas próprias vivências, o que se passa com o próximo.
Obviamente, por ser subjetiva, não explica nada, apenas, oferece gratuitamente, material para que possamos amassar e dar a forma que quisermos. Matéria abstrata, que transformamos à nossa moda, que ruminamos até tirar dela alguma, ou nenhuma conclusão. Sorvendo ou cuspindo.
Pode nos ajudar a suportar determinados momentos; ser o apoio numa situação difícil; o incentivo para realizar algo; pode impelir à dança; nos chacoalhar em uma comemoração; ser companhia em momentos de profunda meditação; nos emocionar, imaginando e sentindo algo que nunca vivemos ou iremos viver...
Serve para tirar o peso dos meus ombros e me fazer voar, voltar à nascente, ser criatura que também pode criar, e, sentir que estou, exatamente, no lugar em que deveria estar. E, então, rever objetivos, replanejar o vôo, reafirmar compromissos e recomeçar a jornada.
Pensavam os Gregos: é em contato com as musas da arte, que nos sentimos completos, podendo recordar, do barro que viemos e para onde voltaremos e, também, da nossa imperfeição. Somos conectados por ela, e, por alguns instantes, fugidios, nos sentimos plenos. Cumprindo nosso papel na grande colmeia.
Imitando a vida, a arte nos ensina, através de parábolas e metáforas. Permitindo-nos visitar lugares onde nunca iremos; viver e ver, coisas que jamais, viveríamos, veríamos ou nos seriam permitidas. Por isso, ela é, para nós, um prévio ensaio, onde só o bom aluno, consegue vivenciar a realidade.
Na música, a sensação de todo, vem da harmonia. Nos aspectos de acordes, movimentos, quantidades e famílias. Um acorde pode ser comparado à empatia: notas diferentes, trabalhando num esforço conjunto, por um mesmo objetivo.
Uma tríade de Dó, chamada assim por possuir três notas (ou vozes), é formada pelas notas Dó, Mi e Sol. Seus movimentos, criam melodias paralelas, que complementam a principal, e, geram o chamado acompanhamento.
Numa orquestra ou coral, é impressionante e emocionante ouvir uma música tocada ou cantada em uníssono (todos na mesma nota), materializar a força e o poder de um grupo, com um só ímpeto, de vento, trovão, relâmpago ou fogo...
Quando em vozes distintas, normalmente separadas por características e altura, é possível reparar a beleza entre suas relações de semelhança e diferença, justa e contraposição, criando momentos de tensão e relaxamento, gerando uma sequência contínua e duradoura de emoções.
A música, ensina a beleza e a importância das diferenças, a força poderosa da união e do propósito. Libertando nossa alma, nos levando como folha ao vento, como barco à deriva, sem temores e medos, apenas com a certeza da aventura.
Compositor e maestro, são responsáveis pela criação, planejamento e condução, mas se torna clara, a necessidade da cooperação e participação de todos, pois cada pequeno instrumento ou voz, que pode parecer insignificante, é fundamental, no momento certo e oportuno.
Encontrei, no YouTube, o registro em vídeo, de um trabalho muito bonito, da escola de música dinamarquesa, Ollerup Eftenskole, que em vários anos, fez um arranjo para coral, com alunos, para a música Bohemian Rapsody, do Queen. Recomendo que vejam. É, de verdade, muito emocionante!
Assistir a isso é bom, nesta época, de extremo egocentrismo e polarização, para recordar o quanto esse comportamento é prejudicial, seja na área que for. Desprezar a opinião alheia, tratando-a como falta de inteligência ou como maldade é, no mínimo, uma grande demonstração de soberba e de falta de empatia.
Não vivemos a mesma realidade de ninguém, por isso, é necessário tratar as diferenças com muito respeito. Ver, além das aparências, o que as pessoas, realmente, almejam e querem dizer, sem frases prontas. E, assim, enxergar que há muito mais coisas para nos unir, do que para nos separar.
Aos que julgam inteligente a capacidade de discutir sobre tudo, lembro que, a humildade é, sempre, a maior sabedoria. É saber calar, evitando ecoar o ódio que se propaga e, em silêncio, perceber que os “cabeças”, não têm bandeiras, beneficiando-se em qualquer cenário, e, mais ainda, nesta condição de apartados a que chegamos. Como diria Paulo Leminski: “O poder é o sexo dos velhos.”
Faço um convite aos que ainda amam: Vamos imitar a arte e viver em harmonia?
Até a próxima!
A arte, num sentido mais simples, é o fruto de vivências. Que geram sentimentos, expressos por quem passa por alguma situação, seja vivendo, convivendo, observando ou interpretando, a seu modo, com base, também, nas suas próprias vivências, o que se passa com o próximo.
Obviamente, por ser subjetiva, não explica nada, apenas, oferece gratuitamente, material para que possamos amassar e dar a forma que quisermos. Matéria abstrata, que transformamos à nossa moda, que ruminamos até tirar dela alguma, ou nenhuma conclusão. Sorvendo ou cuspindo.
Pode nos ajudar a suportar determinados momentos; ser o apoio numa situação difícil; o incentivo para realizar algo; pode impelir à dança; nos chacoalhar em uma comemoração; ser companhia em momentos de profunda meditação; nos emocionar, imaginando e sentindo algo que nunca vivemos ou iremos viver...
Serve para tirar o peso dos meus ombros e me fazer voar, voltar à nascente, ser criatura que também pode criar, e, sentir que estou, exatamente, no lugar em que deveria estar. E, então, rever objetivos, replanejar o vôo, reafirmar compromissos e recomeçar a jornada.
Pensavam os Gregos: é em contato com as musas da arte, que nos sentimos completos, podendo recordar, do barro que viemos e para onde voltaremos e, também, da nossa imperfeição. Somos conectados por ela, e, por alguns instantes, fugidios, nos sentimos plenos. Cumprindo nosso papel na grande colmeia.
Imitando a vida, a arte nos ensina, através de parábolas e metáforas. Permitindo-nos visitar lugares onde nunca iremos; viver e ver, coisas que jamais, viveríamos, veríamos ou nos seriam permitidas. Por isso, ela é, para nós, um prévio ensaio, onde só o bom aluno, consegue vivenciar a realidade.
Na música, a sensação de todo, vem da harmonia. Nos aspectos de acordes, movimentos, quantidades e famílias. Um acorde pode ser comparado à empatia: notas diferentes, trabalhando num esforço conjunto, por um mesmo objetivo.
Uma tríade de Dó, chamada assim por possuir três notas (ou vozes), é formada pelas notas Dó, Mi e Sol. Seus movimentos, criam melodias paralelas, que complementam a principal, e, geram o chamado acompanhamento.
Numa orquestra ou coral, é impressionante e emocionante ouvir uma música tocada ou cantada em uníssono (todos na mesma nota), materializar a força e o poder de um grupo, com um só ímpeto, de vento, trovão, relâmpago ou fogo...
Quando em vozes distintas, normalmente separadas por características e altura, é possível reparar a beleza entre suas relações de semelhança e diferença, justa e contraposição, criando momentos de tensão e relaxamento, gerando uma sequência contínua e duradoura de emoções.
A música, ensina a beleza e a importância das diferenças, a força poderosa da união e do propósito. Libertando nossa alma, nos levando como folha ao vento, como barco à deriva, sem temores e medos, apenas com a certeza da aventura.
Compositor e maestro, são responsáveis pela criação, planejamento e condução, mas se torna clara, a necessidade da cooperação e participação de todos, pois cada pequeno instrumento ou voz, que pode parecer insignificante, é fundamental, no momento certo e oportuno.
Encontrei, no YouTube, o registro em vídeo, de um trabalho muito bonito, da escola de música dinamarquesa, Ollerup Eftenskole, que em vários anos, fez um arranjo para coral, com alunos, para a música Bohemian Rapsody, do Queen. Recomendo que vejam. É, de verdade, muito emocionante!
Assistir a isso é bom, nesta época, de extremo egocentrismo e polarização, para recordar o quanto esse comportamento é prejudicial, seja na área que for. Desprezar a opinião alheia, tratando-a como falta de inteligência ou como maldade é, no mínimo, uma grande demonstração de soberba e de falta de empatia.
Não vivemos a mesma realidade de ninguém, por isso, é necessário tratar as diferenças com muito respeito. Ver, além das aparências, o que as pessoas, realmente, almejam e querem dizer, sem frases prontas. E, assim, enxergar que há muito mais coisas para nos unir, do que para nos separar.
Aos que julgam inteligente a capacidade de discutir sobre tudo, lembro que, a humildade é, sempre, a maior sabedoria. É saber calar, evitando ecoar o ódio que se propaga e, em silêncio, perceber que os “cabeças”, não têm bandeiras, beneficiando-se em qualquer cenário, e, mais ainda, nesta condição de apartados a que chegamos. Como diria Paulo Leminski: “O poder é o sexo dos velhos.”
Faço um convite aos que ainda amam: Vamos imitar a arte e viver em harmonia?
Até a próxima!
Coluna de Outubro de 2018 para o jornal Portal
Esses dias, minha filha veio me perguntar se o Zeca cantava samba ou pagode. Diante de pergunta tão inusitada, quis saber melhor o porquê da dúvida. E ela explicou-me que, o irmão, lhe havia dito: “Assim é a vida: “Karatê Kid” é um filme sobre Kung-Fu e Zeca Pagodinho, canta samba.”
Sobre o filme, apesar do “Karatê Kid” original, de 1984, ser uma história que tem o Karatê como pano de fundo, o filme homônimo, de 2010, do qual falavam, não é um remake e, sim, uma história similar que se passa na China e tem, realmente, o Kung-fu como tema. Apesar de errado, é o nome verdadeiro do filme...
Para responder a pergunta, fiz um resumo da história que conheço, com o objetivo de mostrar diversos movimentos que culminaram no que vivemos hoje.
Cada um de nós, artista ou não, traz, dentro de si, influências de tudo que viu e ouviu. Desde as coisas que buscamos, às que assimilamos por “osmose” ou por acidente. Mesmo assim, apesar dos gostos serem únicos, nossas experiências humanas similares, geram identificação, em graus e intensidades diferentes.
A partir daí, podemos entender que cada nova geração, terá representantes que afirmarão seus pontos-de-vista, seja enaltecendo ou se opondo aos anteriores.
Na Europa, pagode é um tipo de dança. No Brasil, é uma roda de música, regada a farta bebida e comida. Um evento informal, num momento de folga e lazer dos profissionais confraternizando-se, também, com os amadores e apreciadores. Narrado por Paulinho da Viola e Elton Medeiros, no partido “Pagode do Vavá”.
O partido alto é um tipo de samba, com refrão central muito forte, que determina o tema sobre o qual os “partideiros” irão versar. Como é improvisado, o que temos acesso, nos discos e apresentações, é uma edição dos melhores momentos e versos. Outros exemplos são: “Iaiá”, “Bagaço da laranja”,”SPC”...
Quando o samba passou a ser considerado patrimônio nacional, os instrumentos de escola de samba, foram se readaptando às rodas e palcos. Para que não abafassem os de corda, era necessário que não estivessem na mesma quantidade e sua sonoridade fosse mais baixa e apurada do que na avenida.
Até então, essas adaptações eram pontuais, mas na década de 80, o Fundo de Quintal, tornou-se uma roda de samba notória - um pagode às Quartas-feiras, na quadra do Cacique de Ramos - onde se juntavam milhares de pessoas. Naquele contexto cultural, social e econômico, a palavra (pagode) ganhou fama.
A harmonia era pós Bossa Nova, as composições próprias, com letras inteligentes, trazendo crônicas atualizadas do cotidiano do samba, do subúrbio e de um Brasil que sofre, mas que, ainda assim, reage com humor e ironia. Sua melodia descendia do Choro, do Samba-Canção e de todo nosso rico cancioneiro popular.
Ali, se agregou a sonoridade do banjo, introduzido por Almir Guineto, um cavaco com corpo de banjo; o tantã, trazido por Neoci, que é um atabaque de corpo cilíndrico e o repique de mão, trazido por Ubirani, que é um repique de vara ou repinique, sem a pele de resposta, tocado com a ponta dos dedos.
Os conjuntos formados a partir de então, passaram a usar essa instrumentação e se auto intitularam grupos de pagode. Mas não tinham apenas o samba como influência, também ouviam os descendentes do “Som da Motown”: Soul, R&B, Charme, Gospel, Disco e toda a “Black music” que, naquele momento, culminava na música POP, tendo como seu principal representante, Michael Jackson.
Dessa mistura, surgiu, na década de 90, um novo jeito de se fazer samba, denominado, por alguns críticos, de PAGODE - agora como gênero musical - que seria o POP brasileiro, com muitos “hits”, grande profusão de artistas, super cachês, discos de ouro e platina, mas de duração muito efêmera.
As letras passaram a ter uma temática estritamente romântica, perdendo a veia crítica e a capacidade de formar e informar. Sua instrumentação passou a ter teclado e saxofone (muitas vezes sem cavaco e pandeiro) e sua harmonia e melodia seguiram a linha do POP, menos variada e mais repetitiva.
Essa música mais fácil, romântica, ao ritmo de samba, teve uma popularidade imensa e criou muitos adeptos e, também, muitos desafetos. Quem era beneficiado via o movimento como uma evolução, os que saiam de cena, sentiam-se roubados, apesar das tentativas de amenizar a polêmica em torno do assunto.
A postura da maioria dos sambistas foi a de se manter como resistência cultural, voltando a chamar a reunião de roda de samba. Grupos como o Revelação, mantiveram firme seu propósito de revelar novos talentos e de resgatar os antigos e, assim, artistas que viveram para o samba, puderam voltar à tona.
Quando se gosta de samba, não é raro ouvir casos sobre um sambista que se ofendeu ao ser chamado de pagodeiro e, muitas vezes, nem é possível alcançar o teor da discussão, pois, os fatos e personagens, que permitiriam compreender as diferenças, não são conhecidos. Por isso, é bom ouvir as histórias.
Dentro do samba, porém, existem muitos que não ligam para tais rótulos, importando-se, apenas, com as realizações e postura dos artistas e se sua música é boa. Zeca Pagodinho, um dos maiores partideiros de que se têm notícia, é, realmente, compositor e cantor de sambas e partido alto.
Salve a boa música!!! Até a próxima!!!
Sobre o filme, apesar do “Karatê Kid” original, de 1984, ser uma história que tem o Karatê como pano de fundo, o filme homônimo, de 2010, do qual falavam, não é um remake e, sim, uma história similar que se passa na China e tem, realmente, o Kung-fu como tema. Apesar de errado, é o nome verdadeiro do filme...
Para responder a pergunta, fiz um resumo da história que conheço, com o objetivo de mostrar diversos movimentos que culminaram no que vivemos hoje.
Cada um de nós, artista ou não, traz, dentro de si, influências de tudo que viu e ouviu. Desde as coisas que buscamos, às que assimilamos por “osmose” ou por acidente. Mesmo assim, apesar dos gostos serem únicos, nossas experiências humanas similares, geram identificação, em graus e intensidades diferentes.
A partir daí, podemos entender que cada nova geração, terá representantes que afirmarão seus pontos-de-vista, seja enaltecendo ou se opondo aos anteriores.
Na Europa, pagode é um tipo de dança. No Brasil, é uma roda de música, regada a farta bebida e comida. Um evento informal, num momento de folga e lazer dos profissionais confraternizando-se, também, com os amadores e apreciadores. Narrado por Paulinho da Viola e Elton Medeiros, no partido “Pagode do Vavá”.
O partido alto é um tipo de samba, com refrão central muito forte, que determina o tema sobre o qual os “partideiros” irão versar. Como é improvisado, o que temos acesso, nos discos e apresentações, é uma edição dos melhores momentos e versos. Outros exemplos são: “Iaiá”, “Bagaço da laranja”,”SPC”...
Quando o samba passou a ser considerado patrimônio nacional, os instrumentos de escola de samba, foram se readaptando às rodas e palcos. Para que não abafassem os de corda, era necessário que não estivessem na mesma quantidade e sua sonoridade fosse mais baixa e apurada do que na avenida.
Até então, essas adaptações eram pontuais, mas na década de 80, o Fundo de Quintal, tornou-se uma roda de samba notória - um pagode às Quartas-feiras, na quadra do Cacique de Ramos - onde se juntavam milhares de pessoas. Naquele contexto cultural, social e econômico, a palavra (pagode) ganhou fama.
A harmonia era pós Bossa Nova, as composições próprias, com letras inteligentes, trazendo crônicas atualizadas do cotidiano do samba, do subúrbio e de um Brasil que sofre, mas que, ainda assim, reage com humor e ironia. Sua melodia descendia do Choro, do Samba-Canção e de todo nosso rico cancioneiro popular.
Ali, se agregou a sonoridade do banjo, introduzido por Almir Guineto, um cavaco com corpo de banjo; o tantã, trazido por Neoci, que é um atabaque de corpo cilíndrico e o repique de mão, trazido por Ubirani, que é um repique de vara ou repinique, sem a pele de resposta, tocado com a ponta dos dedos.
Os conjuntos formados a partir de então, passaram a usar essa instrumentação e se auto intitularam grupos de pagode. Mas não tinham apenas o samba como influência, também ouviam os descendentes do “Som da Motown”: Soul, R&B, Charme, Gospel, Disco e toda a “Black music” que, naquele momento, culminava na música POP, tendo como seu principal representante, Michael Jackson.
Dessa mistura, surgiu, na década de 90, um novo jeito de se fazer samba, denominado, por alguns críticos, de PAGODE - agora como gênero musical - que seria o POP brasileiro, com muitos “hits”, grande profusão de artistas, super cachês, discos de ouro e platina, mas de duração muito efêmera.
As letras passaram a ter uma temática estritamente romântica, perdendo a veia crítica e a capacidade de formar e informar. Sua instrumentação passou a ter teclado e saxofone (muitas vezes sem cavaco e pandeiro) e sua harmonia e melodia seguiram a linha do POP, menos variada e mais repetitiva.
Essa música mais fácil, romântica, ao ritmo de samba, teve uma popularidade imensa e criou muitos adeptos e, também, muitos desafetos. Quem era beneficiado via o movimento como uma evolução, os que saiam de cena, sentiam-se roubados, apesar das tentativas de amenizar a polêmica em torno do assunto.
A postura da maioria dos sambistas foi a de se manter como resistência cultural, voltando a chamar a reunião de roda de samba. Grupos como o Revelação, mantiveram firme seu propósito de revelar novos talentos e de resgatar os antigos e, assim, artistas que viveram para o samba, puderam voltar à tona.
Quando se gosta de samba, não é raro ouvir casos sobre um sambista que se ofendeu ao ser chamado de pagodeiro e, muitas vezes, nem é possível alcançar o teor da discussão, pois, os fatos e personagens, que permitiriam compreender as diferenças, não são conhecidos. Por isso, é bom ouvir as histórias.
Dentro do samba, porém, existem muitos que não ligam para tais rótulos, importando-se, apenas, com as realizações e postura dos artistas e se sua música é boa. Zeca Pagodinho, um dos maiores partideiros de que se têm notícia, é, realmente, compositor e cantor de sambas e partido alto.
Salve a boa música!!! Até a próxima!!!
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Coluna de Setembro de 2018, para o Jornal Portal:
Sucesso, reconhecimento, fama, carreira, dinheiro e qualidade da obra
são coisas distintas e, quase sempre, distantes. Embora a maioria das
pessoas traga, inconscientemente, a noção de que uma decorre da outra,
não é regra ocorrerem juntas, simultaneamente, nem mesmo, na sequência
esperada.
Ter sucesso, significa ter êxito, planejar e realizar algo. Ter reconhecimento, significa que outras pessoas admiram e reconhecem este êxito. Ter fama, significa que, além de seus êxitos, seu nome também está vinculado a eles. Ter uma carreira, significa que você busca desenvolvê-los e aprimorá-los.
É uma ilusão achar que existe uma relação direta entre isso e a independência financeira ou a qualidade do que se faz. São coisas diferentes e independentes.
Van Gogh só foi considerado gênio depois de sua morte. Cartola gravou seu primeiro disco aos 66 anos. As partituras de Bach, depois de sua morte, eram vendidas como jornal, para embrulhar peixe. Será que essas obras melhoraram com o passar do tempo, ou a forma de avaliação, que é sempre escorregadia?
Cria-se a teoria sobre as pinceladas de Picasso ou Monet. O que era técnica grosseira passa a ser uma técnica divina. A própria falta de técnica pode passar a ser um bom critério. O julgamento acontece segundo os parâmetros de uma época, de um contexto histórico, mas a boa obra é perene.
Um artista, considerado ruim, pode, nesta perspectiva histórica, vir a ser considerado precurssor de uma tendência “genial”, em outra época, mais afastada de seu tempo. O importante é ter a inteligência de saber que ninguém é capaz de julgar a arte, afinal, nem sequer, pode-se dizer, com exatidão, o que ela é.
No entanto, é possível senti-la e saber que se manifesta através de nós. É fruto da expressão humana, algo muito complexo e, também, muito simples, como a própria vida - farta e tangível. Como explicar o que é vida? Num texto é difícil, no entanto, qualquer criança, que ainda não lê, pode compreender.
Por isso, não se deixe enganar, apesar de estarmos tão presos neste modelo de “sucesso”, sem desmerecer suas qualidades, é preciso enxergar e compreender que a arte vai muito além dele e, amiúde, é bem menos engessada ou enlatada.
O pragmatismo que vivemos, dificulta a compreensão de que existem diversas gradações de cores entre os “opostos” aos quais alternamos nossa dicotomia - amor e ódio. As outras diversas possibilidades, têm sido negligenciadas. Não conseguimos apreciar nada que esteja fora do quadrado ou que não tenha um, questionável, “selo” de qualidade.
Essa preferência por esquemas prontos e que “dão certo” - afinal, dar certo é vender - tem sido algo muito ruim, pois tira da arte parte de seu papel que é fazer pensar, questionar e incomodar. Não aponta todos os nossos podres, só os que permitimos, valorizando, apenas, sua capacidade de nos agradar.
Criou-se um roteiro, uma lista de coisas necessárias para que algo seja bom. Nós mesmos, precisamos nos sentir extremamente felizes, empolgados ou tristes para considerar, por exemplo, um filme bom. Até mesmo nossas sensações estão programadas. Se a arte imita a vida, creio que esteja faltando coisa.
Apesar do marketing ser o que gira o mundo, criando necessidades e movendo a roda do consumo, é preciso ter a consciência de que a vida é uma sucessão de momentos, tristes, felizes, vazios, cheios de esperança, de frustrações e infinitas sensações que podem ser expressas por um artista que as coleciona.
Por isso, é preciso dar oportunidade à arte, aceitar seu convite para ver outras paisagens, falar outras línguas, conhecer outras realidades, isso nos torna mais conscientes e humanos, diminui a intolerância, os preconceitos, nos torna mais cultos, mais críticos e menos impulsivos, cientes de toda nossa diversidade.
Nosso espírito tem buscado se manter preso. Tem sido preferível ficar no cativeiro do que ver outras coisas, tamanha é a repulsa ao diferente. A fantasia tem sido priorizada, apesar de a vida mostrar que, na maioria das vezes, não termina no “felizes para sempre” e, muito menos, se acabaria com o nosso sofrimento.
Quantos artistas já morreram sem ser conhecidos? Quantos vivem entre nós e só terão reconhecimento depois de sua morte? Quantos nunca terão valor? Será que Michelangelo se importaria com isso? Será que Da Vinci abdicaria de ser quem foi? Independente do reconhecimento, estavam sempre em sua busca.
A busca consiste na constante realização. Amenizando inquietações, exorcizando fantasmas, denunciando injustiças, dando voz às questões, que são de todos os seres humanos. Também pelo aprimoramento, a possibilidade de experimentar, poder errar e aprender com isso. Afinal: “O homem é o exercício que faz.”
Mãos à obra! Não importa se o texto terá um ou um milhão de leitores. O próprio exercício de escrever é um aprendizado e basta que isso satisfaça. Se, além disso, ainda houver outra pessoa reativa ao conteúdo, seja a favor ou contra, a comunicação foi feita e o ciclo se completou, cabendo agora a ela, reagir.
Até a próxima!!!
Ter sucesso, significa ter êxito, planejar e realizar algo. Ter reconhecimento, significa que outras pessoas admiram e reconhecem este êxito. Ter fama, significa que, além de seus êxitos, seu nome também está vinculado a eles. Ter uma carreira, significa que você busca desenvolvê-los e aprimorá-los.
É uma ilusão achar que existe uma relação direta entre isso e a independência financeira ou a qualidade do que se faz. São coisas diferentes e independentes.
Van Gogh só foi considerado gênio depois de sua morte. Cartola gravou seu primeiro disco aos 66 anos. As partituras de Bach, depois de sua morte, eram vendidas como jornal, para embrulhar peixe. Será que essas obras melhoraram com o passar do tempo, ou a forma de avaliação, que é sempre escorregadia?
Cria-se a teoria sobre as pinceladas de Picasso ou Monet. O que era técnica grosseira passa a ser uma técnica divina. A própria falta de técnica pode passar a ser um bom critério. O julgamento acontece segundo os parâmetros de uma época, de um contexto histórico, mas a boa obra é perene.
Um artista, considerado ruim, pode, nesta perspectiva histórica, vir a ser considerado precurssor de uma tendência “genial”, em outra época, mais afastada de seu tempo. O importante é ter a inteligência de saber que ninguém é capaz de julgar a arte, afinal, nem sequer, pode-se dizer, com exatidão, o que ela é.
No entanto, é possível senti-la e saber que se manifesta através de nós. É fruto da expressão humana, algo muito complexo e, também, muito simples, como a própria vida - farta e tangível. Como explicar o que é vida? Num texto é difícil, no entanto, qualquer criança, que ainda não lê, pode compreender.
Por isso, não se deixe enganar, apesar de estarmos tão presos neste modelo de “sucesso”, sem desmerecer suas qualidades, é preciso enxergar e compreender que a arte vai muito além dele e, amiúde, é bem menos engessada ou enlatada.
O pragmatismo que vivemos, dificulta a compreensão de que existem diversas gradações de cores entre os “opostos” aos quais alternamos nossa dicotomia - amor e ódio. As outras diversas possibilidades, têm sido negligenciadas. Não conseguimos apreciar nada que esteja fora do quadrado ou que não tenha um, questionável, “selo” de qualidade.
Essa preferência por esquemas prontos e que “dão certo” - afinal, dar certo é vender - tem sido algo muito ruim, pois tira da arte parte de seu papel que é fazer pensar, questionar e incomodar. Não aponta todos os nossos podres, só os que permitimos, valorizando, apenas, sua capacidade de nos agradar.
Criou-se um roteiro, uma lista de coisas necessárias para que algo seja bom. Nós mesmos, precisamos nos sentir extremamente felizes, empolgados ou tristes para considerar, por exemplo, um filme bom. Até mesmo nossas sensações estão programadas. Se a arte imita a vida, creio que esteja faltando coisa.
Apesar do marketing ser o que gira o mundo, criando necessidades e movendo a roda do consumo, é preciso ter a consciência de que a vida é uma sucessão de momentos, tristes, felizes, vazios, cheios de esperança, de frustrações e infinitas sensações que podem ser expressas por um artista que as coleciona.
Por isso, é preciso dar oportunidade à arte, aceitar seu convite para ver outras paisagens, falar outras línguas, conhecer outras realidades, isso nos torna mais conscientes e humanos, diminui a intolerância, os preconceitos, nos torna mais cultos, mais críticos e menos impulsivos, cientes de toda nossa diversidade.
Nosso espírito tem buscado se manter preso. Tem sido preferível ficar no cativeiro do que ver outras coisas, tamanha é a repulsa ao diferente. A fantasia tem sido priorizada, apesar de a vida mostrar que, na maioria das vezes, não termina no “felizes para sempre” e, muito menos, se acabaria com o nosso sofrimento.
Quantos artistas já morreram sem ser conhecidos? Quantos vivem entre nós e só terão reconhecimento depois de sua morte? Quantos nunca terão valor? Será que Michelangelo se importaria com isso? Será que Da Vinci abdicaria de ser quem foi? Independente do reconhecimento, estavam sempre em sua busca.
A busca consiste na constante realização. Amenizando inquietações, exorcizando fantasmas, denunciando injustiças, dando voz às questões, que são de todos os seres humanos. Também pelo aprimoramento, a possibilidade de experimentar, poder errar e aprender com isso. Afinal: “O homem é o exercício que faz.”
Mãos à obra! Não importa se o texto terá um ou um milhão de leitores. O próprio exercício de escrever é um aprendizado e basta que isso satisfaça. Se, além disso, ainda houver outra pessoa reativa ao conteúdo, seja a favor ou contra, a comunicação foi feita e o ciclo se completou, cabendo agora a ela, reagir.
Até a próxima!!!
Coluna de Agosto de 2018 para o Jornal Portal
Apesar de não acompanhar e não compreender o motivo de tanto barulho entorno do futebol e, justamente, por estar afastado das paixões que o cercam, aproveito a repercussão da Copa do Mundo, para traçar mais uma analogia.
Não é preciso ser muito envolvido para perceber a realidade paralela em que ele habita. Comandado por uma entidade disfarçada de desportiva, parcial, com fins lucrativos e que organiza seus critérios, calendário e programação de forma totalmente autoritária, com certeza, a “paixão nacional” não vem em primeiro lugar.
Tendo isso como exemplo, imagine o que acontecerá no futuro, quando as grandes corporações passarem a governar, como vem acontecendo, paulatinamente, em todo mundo. Ao dominar todos os serviços de interesse público, ficará muito difícil defender os interesses da maioria da população, em detrimento dos seus.
Com a música não é diferente. As empresas que visam, exclusivamente, o lucro, determinam, através de estratégias, os caminhos a serem seguidos, ainda que se tenha que convencer a população (também chamada de mercado), através de ações de marketing, a querer, comprar ou gostar de algo que não gostam.
Esporte e arte fazem parte da cultura e deveriam ser tratados como saúde e educação. Essas atividades são estratégicas para qualquer nação e seu desenvolvimento é intrinsecamente ligado e influenciado por elas, pois têm fundamental importância na formação da cidadania e, até, na resistência cultural.
Por isso, é impossível conceber a ideia de que apenas dados da economia, possam, de alguma forma, representar toda a variedade de necessidades humanas.
Nessa Copa teórica, foi curioso perceber a incapacidade dos narradores e comentaristas de lidar com a realidade que viram. Acostumados a enaltecer os craques, ficaram sem saber o que dizer quando não viram acontecer nas seleções, o que, frequentemente, vêem em campeonatos de clubes.
Deve ser difícil entender que um clube já é uma seleção. A “casa” onde treinam, criam e vivenciam esse contexto, em grupo, unindo habilidades individuais, somando e amalgamando o que se tornará sua identidade coletiva, sendo impossível repetir seus feitos e resultados em outro ambiente.
Pegue os maiores instrumentistas eruditos do mundo. Sozinhos, nunca obterão o resultado de uma orquestra e, quando reunidos, nada acontecerá sem ensaio. Melhor um grupo de desconhecidos ensaiados, do que renomados músicos perdidos - acredite! Não importa o quanto tocam, a obra de Bach ou de Beethoven exige harmonia e poliritmia, tudo é simultâneo e completamente sincronizado.
E na música popular? Vamos montar uma seleção? Phil Collins na bateria, Paul McCartney ao piano, Sting no Baixo, Mark Knopfler e Eric Clapton nas guitarras, Elton John ao piano. Então? Seria maravilhoso, não é?
Não seria como os grupos de onde surgiram, Genesis, Beatles, Police ou Dire Straits, pois sem os demais integrantes, que são partes cruciais de cada trabalho, perderíamos a referência. E, além disso, estes grandes expoentes precisam de espaço, como disse Rauzito: “É muita estrela para pouca constelação.”
Cada agrupamento de pessoas tem uma identidade. Mesmo se, apenas, um elemento for trocado, a dinâmica interna muda. Seja para melhor ou pior, muitas características daquele grupo se transformam. Como disse Charles Darwin: “Evoluir não quer dizer, necessariamente, melhorar, mas, se adaptar.”
Podemos ver essa seleção tocando no concerto “Music for Montserat”. Uma apresentação beneficente, realizada em Londres, em 1997. A nobre causa e a banda inusitada, geram, em nós, a sensação boa de vê-los reunidos, mas percebe-se que falta alguma coisa. É uma celebração e não um projeto trabalhado.
Num grupo coeso, todos trabalham por um mesmo objetivo e quando estão nesse ambiente, fazendo o que sabem e gostam de fazer, são como são, e cada um se destaca por suas capacidades, naturalmente. Isso é recorrente em qualquer tipo de grupo, banda ou time, seja do trabalho ou da esquina, conhecido ou não.
Mas nossos homens de TV, não conseguem compreender que o Messi só será o Messi que todos esperam, quando ensaiar. Quando todos a sua volta jogarem brilhando em suas posições, para que ele brilhe na dele. Não adianta repetir seu nome para as paredes, pois isso não fará com que o jogo fique melhor.
Mark Knopfler continua tocando muito. Mesmo fora do Dire Straits. Mas é outra coisa. É diferente. E é preciso entender que é uma escolha, querer repetir, durante anos, o que sempre fez ou querer ser diferente a cada ano. Como ouvintes e fãs, também podemos mudar ou manter nosso interesse. Isso é natural.
Assim como acontece no futebol, existem atributos e habilidades comuns a todos os músicos, que os fazem profissionais. E, entre eles, isso não é um diferencial. Mas a compreensão de que suas habilidades, a serviço de um todo, funcionam melhor do que individualmente, desequilibra, de fato, qualquer partida.
Vamos nos esforçar para jogar unidos pelo Brasil, chega de Fla Flu, as eleições vem aí! Abraços e até a próxima!
Não é preciso ser muito envolvido para perceber a realidade paralela em que ele habita. Comandado por uma entidade disfarçada de desportiva, parcial, com fins lucrativos e que organiza seus critérios, calendário e programação de forma totalmente autoritária, com certeza, a “paixão nacional” não vem em primeiro lugar.
Tendo isso como exemplo, imagine o que acontecerá no futuro, quando as grandes corporações passarem a governar, como vem acontecendo, paulatinamente, em todo mundo. Ao dominar todos os serviços de interesse público, ficará muito difícil defender os interesses da maioria da população, em detrimento dos seus.
Com a música não é diferente. As empresas que visam, exclusivamente, o lucro, determinam, através de estratégias, os caminhos a serem seguidos, ainda que se tenha que convencer a população (também chamada de mercado), através de ações de marketing, a querer, comprar ou gostar de algo que não gostam.
Esporte e arte fazem parte da cultura e deveriam ser tratados como saúde e educação. Essas atividades são estratégicas para qualquer nação e seu desenvolvimento é intrinsecamente ligado e influenciado por elas, pois têm fundamental importância na formação da cidadania e, até, na resistência cultural.
Por isso, é impossível conceber a ideia de que apenas dados da economia, possam, de alguma forma, representar toda a variedade de necessidades humanas.
Nessa Copa teórica, foi curioso perceber a incapacidade dos narradores e comentaristas de lidar com a realidade que viram. Acostumados a enaltecer os craques, ficaram sem saber o que dizer quando não viram acontecer nas seleções, o que, frequentemente, vêem em campeonatos de clubes.
Deve ser difícil entender que um clube já é uma seleção. A “casa” onde treinam, criam e vivenciam esse contexto, em grupo, unindo habilidades individuais, somando e amalgamando o que se tornará sua identidade coletiva, sendo impossível repetir seus feitos e resultados em outro ambiente.
Pegue os maiores instrumentistas eruditos do mundo. Sozinhos, nunca obterão o resultado de uma orquestra e, quando reunidos, nada acontecerá sem ensaio. Melhor um grupo de desconhecidos ensaiados, do que renomados músicos perdidos - acredite! Não importa o quanto tocam, a obra de Bach ou de Beethoven exige harmonia e poliritmia, tudo é simultâneo e completamente sincronizado.
E na música popular? Vamos montar uma seleção? Phil Collins na bateria, Paul McCartney ao piano, Sting no Baixo, Mark Knopfler e Eric Clapton nas guitarras, Elton John ao piano. Então? Seria maravilhoso, não é?
Não seria como os grupos de onde surgiram, Genesis, Beatles, Police ou Dire Straits, pois sem os demais integrantes, que são partes cruciais de cada trabalho, perderíamos a referência. E, além disso, estes grandes expoentes precisam de espaço, como disse Rauzito: “É muita estrela para pouca constelação.”
Cada agrupamento de pessoas tem uma identidade. Mesmo se, apenas, um elemento for trocado, a dinâmica interna muda. Seja para melhor ou pior, muitas características daquele grupo se transformam. Como disse Charles Darwin: “Evoluir não quer dizer, necessariamente, melhorar, mas, se adaptar.”
Podemos ver essa seleção tocando no concerto “Music for Montserat”. Uma apresentação beneficente, realizada em Londres, em 1997. A nobre causa e a banda inusitada, geram, em nós, a sensação boa de vê-los reunidos, mas percebe-se que falta alguma coisa. É uma celebração e não um projeto trabalhado.
Num grupo coeso, todos trabalham por um mesmo objetivo e quando estão nesse ambiente, fazendo o que sabem e gostam de fazer, são como são, e cada um se destaca por suas capacidades, naturalmente. Isso é recorrente em qualquer tipo de grupo, banda ou time, seja do trabalho ou da esquina, conhecido ou não.
Mas nossos homens de TV, não conseguem compreender que o Messi só será o Messi que todos esperam, quando ensaiar. Quando todos a sua volta jogarem brilhando em suas posições, para que ele brilhe na dele. Não adianta repetir seu nome para as paredes, pois isso não fará com que o jogo fique melhor.
Mark Knopfler continua tocando muito. Mesmo fora do Dire Straits. Mas é outra coisa. É diferente. E é preciso entender que é uma escolha, querer repetir, durante anos, o que sempre fez ou querer ser diferente a cada ano. Como ouvintes e fãs, também podemos mudar ou manter nosso interesse. Isso é natural.
Assim como acontece no futebol, existem atributos e habilidades comuns a todos os músicos, que os fazem profissionais. E, entre eles, isso não é um diferencial. Mas a compreensão de que suas habilidades, a serviço de um todo, funcionam melhor do que individualmente, desequilibra, de fato, qualquer partida.
Vamos nos esforçar para jogar unidos pelo Brasil, chega de Fla Flu, as eleições vem aí! Abraços e até a próxima!
Coluna de Julho de 2018 para o Jornal Portal
Mês passado, chegaram aqui em casa, dois móveis que encomendamos chamados de “padaria”, que são estantes com portas em cada uma de suas prateleiras. Essas portas, além de terem vidro, para que se possa ver o que guardam, são retráteis, abrem para cima e, depois, escorregam para dentro do móvel.
Depois de deixarmos as duas de castigo no quarto por quase um mês, devido ao fedor de querosene (ou algo que o valha), que empesteou a casa e nos deixou, a todos, com uma reação alérgica terrível, vejam como realmente é importante essa última envernizada, finalmente era chegada a hora de arrumar a estante.
Desde 1991, mais ou menos, quando tinha uns quinze anos e meu pai comprou o primeiro CD player que tivemos, um Sony Carroussel, comecei a colecioná-los e não parei mais. Depois de casar e com as mudanças constantes de mídia, a coisa se reduziu bem, mas já tinha um bocado...
Minha esposa é professora de educação física e, para auxiliá-la nas aulas de ginástica e spinning, também possui um grande acervo. No seu caso, são discos montados, pois é necessário juntar músicas que tem o mesmo BPM, para poder ter sequências de mais de uma hora com o mesmo andamento para as aulas.
Abrindo o armário vimos as fitas cassete, CDs de dados e programas, MDs, DVDs, mini Dvs, fitas de vídeo, walkman, discman, fones de ouvido e de repente fiquei atônito. Carol olhou para mim e perguntou se estava com preguiça, mas eu respondi a ela que tinha encontrado o assunto da minha próxima coluna.
Para quem vive em nosso planeta, é quase inevitável que se acabe conhecendo instrumentos, gravadoras, aparelhos e mídias, e conheça, assim, algumas empresas que nos fornecem tais serviços e produtos. E isso não se trata de assunto de músico, pois o insight que tive, tem relação com a forma através da qual nos habituamos a viver, desde a segunda metade do século passado.
Percebi que a empresa Sony era responsável por TODAS aquelas mídias e aparelhos que tínhamos no armário. Mesmo quando a marca era outra, a patente era dela, já que tinha inventado tudo aquilo. Fui para o oráculo (Google) para ter a confirmação se o que pensava estava certo ou não, e lá estava o resultado.
Não apenas os aparelhos e mídias que citei, como vídeo games, games, TV colorida, digital, DATs, computadores, e mais centenas de coisas do tipo, que não dá para enumerar aqui, são patenteadas pela empresa. Sem falar nos seus outros braços de atuação, uma gigante global, em todos os ramos do entretenimento.
Vejamos: a Sony Music é gravadora e comprou a Columbia, a RCA-Victor e a BMG; a Sony Pictures é produtora e comprou a Metro-Goldwin-Mayer e Tristar pictures; a Sony Entertainment, tem os canais Sony, Spin, AXN, entre outros. E, como editora e detentora de direitos autorais, tornou-se a número um do mundo quando comprou o acervo da falida EMI.
Criei, com o tempo, uma boa relação com a Sony, construída através da confiança nos aparelhos, percebendo a durabilidade e reconhecendo sua constante inovação, tornando-se, para mim, uma referência de qualidade e de tecnologia.
Levando em consideração tudo o que me proporcionaram, poderia até dizer que essa relação é sentimental. Já que fluiu através da música, nesse primeiro aparelho de som, das fitas que gravei; mais tarde, com as fotos que tirei nas viagens, dos vídeos que fiz do nascimento das minhas filhas, etc... Afinal, toda a nossa vida pessoal, atualmente, passa pelas mídias, reprodutores, editores e se tornou, inegavelmente, digital, e isso tem grande influência dessa empresa.
Mas, tentando ultrapassar esta perspectiva da alta tecnologia que reconhecidamente é fruto de muito trabalho e pesquisa, é sempre necessário que busquemos uma reflexão, toda vez que a vida nos conscientiza sobre algo.
A primeira e mais importante é saber se as empresas de tecnologia têm, realmente, buscado a certeza de que a mão-de-obra terceirizada que contratam, não é escrava, que a matéria-prima utilizada é retirada de lugares permitidos e vem, de preferência, de fontes renováveis. Ou seja, se preocupam-se com alguma coisa além do lucro, ou estão numa corrida desenfreada pelo 1º lugar.
Também é necessário falar sobre o lixo, já que o crescimento exponencial da tecnologia, torna a mais antiga obsoleta, num curto espaço de tempo, gerando um lixo digital gigante. Quando minha irmã esteve no Japão, em 1995, disse que viu milhares de aparelhos novos no lixo, que dava vontade de trazer. Depois, ficou sabendo que as empresas que os vendiam, eram obrigadas a recolhe-los, reutilizar material, etc. Igual aqui...
Uma coisa é certa: ela não sai perdendo nunca. Além de ser a fornecedora dos objetos da obsessão dos aficcionados por tecnologia, música, jogos, cinema, etc e possuir suas patentes; essa empresa lança um artista pela sua gravadora; o promove através de seus canais; se os possuir, ganha os direitos autorais de sua obra, mesmo sendo de outra gravadora e ainda não tendo nenhum desses tentáculos sobre ele, ganha sobre a patente dos CDS e DVDs vendidos legal e ilegalmente, lucrando até quando há pirataria.
Aproveitando o clima de Copa do Mundo, eu pergunto a arbitragem: Pode isso, Arnaldo? Pois é... Seria fácil dizer que, apesar de sedutora, a tecnologia não sofre pressão da indústria que dita as regras e o ritmo do jogo. Da mesma forma, dizer que toda essa tecnologia e inovação é apenas fantasia sem propósito.
Como sempre, estamos entre a maravilha e a maldição, a grande questão humana do equilíbrio, da harmonia entre pesquisa, recursos, utilização, direitos e reciclagem de forma mais distribuída e benéfica às pessoas e ao planeta.
Até a próxima! Agora vou voltar para minha arrumação...
Depois de deixarmos as duas de castigo no quarto por quase um mês, devido ao fedor de querosene (ou algo que o valha), que empesteou a casa e nos deixou, a todos, com uma reação alérgica terrível, vejam como realmente é importante essa última envernizada, finalmente era chegada a hora de arrumar a estante.
Desde 1991, mais ou menos, quando tinha uns quinze anos e meu pai comprou o primeiro CD player que tivemos, um Sony Carroussel, comecei a colecioná-los e não parei mais. Depois de casar e com as mudanças constantes de mídia, a coisa se reduziu bem, mas já tinha um bocado...
Minha esposa é professora de educação física e, para auxiliá-la nas aulas de ginástica e spinning, também possui um grande acervo. No seu caso, são discos montados, pois é necessário juntar músicas que tem o mesmo BPM, para poder ter sequências de mais de uma hora com o mesmo andamento para as aulas.
Abrindo o armário vimos as fitas cassete, CDs de dados e programas, MDs, DVDs, mini Dvs, fitas de vídeo, walkman, discman, fones de ouvido e de repente fiquei atônito. Carol olhou para mim e perguntou se estava com preguiça, mas eu respondi a ela que tinha encontrado o assunto da minha próxima coluna.
Para quem vive em nosso planeta, é quase inevitável que se acabe conhecendo instrumentos, gravadoras, aparelhos e mídias, e conheça, assim, algumas empresas que nos fornecem tais serviços e produtos. E isso não se trata de assunto de músico, pois o insight que tive, tem relação com a forma através da qual nos habituamos a viver, desde a segunda metade do século passado.
Percebi que a empresa Sony era responsável por TODAS aquelas mídias e aparelhos que tínhamos no armário. Mesmo quando a marca era outra, a patente era dela, já que tinha inventado tudo aquilo. Fui para o oráculo (Google) para ter a confirmação se o que pensava estava certo ou não, e lá estava o resultado.
Não apenas os aparelhos e mídias que citei, como vídeo games, games, TV colorida, digital, DATs, computadores, e mais centenas de coisas do tipo, que não dá para enumerar aqui, são patenteadas pela empresa. Sem falar nos seus outros braços de atuação, uma gigante global, em todos os ramos do entretenimento.
Vejamos: a Sony Music é gravadora e comprou a Columbia, a RCA-Victor e a BMG; a Sony Pictures é produtora e comprou a Metro-Goldwin-Mayer e Tristar pictures; a Sony Entertainment, tem os canais Sony, Spin, AXN, entre outros. E, como editora e detentora de direitos autorais, tornou-se a número um do mundo quando comprou o acervo da falida EMI.
Criei, com o tempo, uma boa relação com a Sony, construída através da confiança nos aparelhos, percebendo a durabilidade e reconhecendo sua constante inovação, tornando-se, para mim, uma referência de qualidade e de tecnologia.
Levando em consideração tudo o que me proporcionaram, poderia até dizer que essa relação é sentimental. Já que fluiu através da música, nesse primeiro aparelho de som, das fitas que gravei; mais tarde, com as fotos que tirei nas viagens, dos vídeos que fiz do nascimento das minhas filhas, etc... Afinal, toda a nossa vida pessoal, atualmente, passa pelas mídias, reprodutores, editores e se tornou, inegavelmente, digital, e isso tem grande influência dessa empresa.
Mas, tentando ultrapassar esta perspectiva da alta tecnologia que reconhecidamente é fruto de muito trabalho e pesquisa, é sempre necessário que busquemos uma reflexão, toda vez que a vida nos conscientiza sobre algo.
A primeira e mais importante é saber se as empresas de tecnologia têm, realmente, buscado a certeza de que a mão-de-obra terceirizada que contratam, não é escrava, que a matéria-prima utilizada é retirada de lugares permitidos e vem, de preferência, de fontes renováveis. Ou seja, se preocupam-se com alguma coisa além do lucro, ou estão numa corrida desenfreada pelo 1º lugar.
Também é necessário falar sobre o lixo, já que o crescimento exponencial da tecnologia, torna a mais antiga obsoleta, num curto espaço de tempo, gerando um lixo digital gigante. Quando minha irmã esteve no Japão, em 1995, disse que viu milhares de aparelhos novos no lixo, que dava vontade de trazer. Depois, ficou sabendo que as empresas que os vendiam, eram obrigadas a recolhe-los, reutilizar material, etc. Igual aqui...
Uma coisa é certa: ela não sai perdendo nunca. Além de ser a fornecedora dos objetos da obsessão dos aficcionados por tecnologia, música, jogos, cinema, etc e possuir suas patentes; essa empresa lança um artista pela sua gravadora; o promove através de seus canais; se os possuir, ganha os direitos autorais de sua obra, mesmo sendo de outra gravadora e ainda não tendo nenhum desses tentáculos sobre ele, ganha sobre a patente dos CDS e DVDs vendidos legal e ilegalmente, lucrando até quando há pirataria.
Aproveitando o clima de Copa do Mundo, eu pergunto a arbitragem: Pode isso, Arnaldo? Pois é... Seria fácil dizer que, apesar de sedutora, a tecnologia não sofre pressão da indústria que dita as regras e o ritmo do jogo. Da mesma forma, dizer que toda essa tecnologia e inovação é apenas fantasia sem propósito.
Como sempre, estamos entre a maravilha e a maldição, a grande questão humana do equilíbrio, da harmonia entre pesquisa, recursos, utilização, direitos e reciclagem de forma mais distribuída e benéfica às pessoas e ao planeta.
Até a próxima! Agora vou voltar para minha arrumação...
quarta-feira, 20 de junho de 2018
Coluna de Junho de 2018 para o Jornal Portal
Quando alguém pergunta quem foi o maior compositor, instrumentista, cantor, regente ou arranjador de todos os tempos, costumo responder perguntando de volta, a opinião dessa pessoa e o motivo. Normalmente, essa resposta varia de acordo com o gosto. Não somos isentos, principalmente no que tange a música.
Independente da capacidade técnica do músico que avaliamos, existem vários outros parâmetros subjetivos que envolvem essas opiniões, muitas vezes motivadas pelo pioneirismo ou por grandes feitos, às vezes reais e, muitas vezes, inventado por fãs ou, na falta deles, pelo próprio músico.
Ser um instrumentista super técnico, um “virtuose”, não dá a esse músico garantia de que as pessoas gostarão de ouvi-lo. Pode se tocar muito e ser hermético, tornando difícil digeri-lo; tocar pouco e ter uma capacidade imensa de se comunicar; não tocar nada e não agradar (normalmente, esses são os polêmicos a quem nada e ninguém agrada) e, finalmente, tocar muito e agradar.
A dificuldade de julgar é natural, pois também diz respeito a várias camadas sobrepostas acumuladas pelo mesmo artista, que muitas vezes não é só músico, mas também, cantor, compositor, letrista e instrumentista de mais de um instrumento. Tornando impossível fazer tudo o que se propõe num mesmo nível.
Dizendo buscar maior coerência nessas avaliações, surgiram revistas especializadas que separavam melhor os nichos, seus representantes mais importantes e conhecidos. Porém, apesar de permitir que o grande público percebesse que dois artistas pudessem ser melhores em estilos diferentes, mantiveram as enquetes de “melhor do mundo” que geram polêmica e discussão sem levar a lugar nenhum.
É importante lembrar que a técnica, tão considerada pelos fãs, é apenas a maneira de se conseguir atingir as ideias, ou seja, se você não tem ideias, a técnica não te adianta de nada. A música tratada através de recordes e números é vazia. A magia do circo é muito mais importante que o recorde olímpico.
Não pense que faço alguma crítica ao esporte. Não. Faço à busca do recorde, do Guiness, do título. Pois todas essas glórias são transitórias (sic transit gloria mundi) enquanto a arte, quando arte, é perene. Feita para se assemelhar a grandeza da natureza e não para enaltecer um homem ou um nome.
Lembro quando Jô Soares, entrevistou B.B. King, dando muita ênfase a velocidade de Joe Satriani, Yngwie Malmsteen e Steve Vai, que deve ter sido proposital, forçando a resposta do velho:
“ - Os meninos estão procurando as notas que eu já encontrei.”
O Blues é um belo exemplo, onde a pura técnica, não vale nada. Se você não nasceu ouvindo o estilo, é preciso entender seu sistema e, depois, usar seu feeling para tocar longas notas que fazem o instrumento chorar. Já que Blues significa saudade, melancolia, tristeza...
No sistema blues a quantidade de compassos, acordes e notas usadas são sabidas previamente. Na tonalidade de Dó, cuja escala é Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si; as notas usadas no solo vão além dessas, usando as “outsides” Mib (a terceira menor), Sib (a sétima menor) e a “blue note” Fá# (quarta aumentada).
Um conhecido Blues Boy (B.B.) Robert Johnson também ficou conhecido por fazer, além de sua música, um pacto com o diabo, para se tornar o melhor guitarrista do mundo, a história citada no filme “A encruzilhada” que teve como protagonista o ator Ralph Macchio (de Karatê kid) e Steve Vai como o guitarrista do diabo.
Aqui no Brasil os violeiros costumam colocar o guizo de uma cascavel no instrumento, para tocar mais que o violeiro a quem desafia etc... Estas histórias fazem parte do folclore, das lendas e mitos que habitam o imaginário dos fãs e trabalhadores do meio, pasmem, não apenas da música popular...
Depois de perceber que tais histórias causam mais interesse dos fãs, muitos artistas do mercado criaram lendas a sua volta e algumas vezes, para sair do status de lenda, passaram a ter atitudes escrotas para serem presos, pagar fiança e criar a imagem de bad boy, que vende...
Falando de vendas, a segmentação do mercado permitiu que existam, além de vários melhores do mundo, muitas categorias de prêmio como no Grammy. Pode se fazer música segundo um parâmetro específico, que agrada apenas a um nicho e ser o melhor do mundo naquilo.
Tais títulos são muito mais restritos do que seus nomes pretendem dizer. Muito mais contextuais à época, à cultura, ao estilo, ao mercado, ao país etc... Na década de 70, Jaco Pastorius era considerado o melhor baixista do mundo, hoje talvez seja Victor Wooten ou o Flea (do Red Hot Chilli Peppers).
Eu, particularmente, gosto dos que jogam para o time, fazendo o melhor pra música e, provavelmente, devem estar fora de qualquer pesquisa: Maurício Maestro do Boca Livre e Sir Paul McCartney dos Beatles.
O melhor é quem nós mais gostamos. Deixem os outros com suas opiniões, há espaço para todos!
Boa Copa e até a próxima!
Independente da capacidade técnica do músico que avaliamos, existem vários outros parâmetros subjetivos que envolvem essas opiniões, muitas vezes motivadas pelo pioneirismo ou por grandes feitos, às vezes reais e, muitas vezes, inventado por fãs ou, na falta deles, pelo próprio músico.
Ser um instrumentista super técnico, um “virtuose”, não dá a esse músico garantia de que as pessoas gostarão de ouvi-lo. Pode se tocar muito e ser hermético, tornando difícil digeri-lo; tocar pouco e ter uma capacidade imensa de se comunicar; não tocar nada e não agradar (normalmente, esses são os polêmicos a quem nada e ninguém agrada) e, finalmente, tocar muito e agradar.
A dificuldade de julgar é natural, pois também diz respeito a várias camadas sobrepostas acumuladas pelo mesmo artista, que muitas vezes não é só músico, mas também, cantor, compositor, letrista e instrumentista de mais de um instrumento. Tornando impossível fazer tudo o que se propõe num mesmo nível.
Dizendo buscar maior coerência nessas avaliações, surgiram revistas especializadas que separavam melhor os nichos, seus representantes mais importantes e conhecidos. Porém, apesar de permitir que o grande público percebesse que dois artistas pudessem ser melhores em estilos diferentes, mantiveram as enquetes de “melhor do mundo” que geram polêmica e discussão sem levar a lugar nenhum.
É importante lembrar que a técnica, tão considerada pelos fãs, é apenas a maneira de se conseguir atingir as ideias, ou seja, se você não tem ideias, a técnica não te adianta de nada. A música tratada através de recordes e números é vazia. A magia do circo é muito mais importante que o recorde olímpico.
Não pense que faço alguma crítica ao esporte. Não. Faço à busca do recorde, do Guiness, do título. Pois todas essas glórias são transitórias (sic transit gloria mundi) enquanto a arte, quando arte, é perene. Feita para se assemelhar a grandeza da natureza e não para enaltecer um homem ou um nome.
Lembro quando Jô Soares, entrevistou B.B. King, dando muita ênfase a velocidade de Joe Satriani, Yngwie Malmsteen e Steve Vai, que deve ter sido proposital, forçando a resposta do velho:
“ - Os meninos estão procurando as notas que eu já encontrei.”
O Blues é um belo exemplo, onde a pura técnica, não vale nada. Se você não nasceu ouvindo o estilo, é preciso entender seu sistema e, depois, usar seu feeling para tocar longas notas que fazem o instrumento chorar. Já que Blues significa saudade, melancolia, tristeza...
No sistema blues a quantidade de compassos, acordes e notas usadas são sabidas previamente. Na tonalidade de Dó, cuja escala é Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si; as notas usadas no solo vão além dessas, usando as “outsides” Mib (a terceira menor), Sib (a sétima menor) e a “blue note” Fá# (quarta aumentada).
Um conhecido Blues Boy (B.B.) Robert Johnson também ficou conhecido por fazer, além de sua música, um pacto com o diabo, para se tornar o melhor guitarrista do mundo, a história citada no filme “A encruzilhada” que teve como protagonista o ator Ralph Macchio (de Karatê kid) e Steve Vai como o guitarrista do diabo.
Aqui no Brasil os violeiros costumam colocar o guizo de uma cascavel no instrumento, para tocar mais que o violeiro a quem desafia etc... Estas histórias fazem parte do folclore, das lendas e mitos que habitam o imaginário dos fãs e trabalhadores do meio, pasmem, não apenas da música popular...
Depois de perceber que tais histórias causam mais interesse dos fãs, muitos artistas do mercado criaram lendas a sua volta e algumas vezes, para sair do status de lenda, passaram a ter atitudes escrotas para serem presos, pagar fiança e criar a imagem de bad boy, que vende...
Falando de vendas, a segmentação do mercado permitiu que existam, além de vários melhores do mundo, muitas categorias de prêmio como no Grammy. Pode se fazer música segundo um parâmetro específico, que agrada apenas a um nicho e ser o melhor do mundo naquilo.
Tais títulos são muito mais restritos do que seus nomes pretendem dizer. Muito mais contextuais à época, à cultura, ao estilo, ao mercado, ao país etc... Na década de 70, Jaco Pastorius era considerado o melhor baixista do mundo, hoje talvez seja Victor Wooten ou o Flea (do Red Hot Chilli Peppers).
Eu, particularmente, gosto dos que jogam para o time, fazendo o melhor pra música e, provavelmente, devem estar fora de qualquer pesquisa: Maurício Maestro do Boca Livre e Sir Paul McCartney dos Beatles.
O melhor é quem nós mais gostamos. Deixem os outros com suas opiniões, há espaço para todos!
Boa Copa e até a próxima!
Coluna de Maio de 2018 para o Jornal Portal
Tenho levantado constantemente, aqui na coluna, questões sobre o mercado musical, tendo sempre como intuito, provocar o pensamento crítico e questionar as “verdades”, através da compreensão dos fatos, com esperança numa profunda transformação. Para isso, trago várias perguntas e, nunca, respostas prontas.
Creio que qualquer pessoa deva, ao menos tentar, desenvolver questionamentos sobre seu lugar, suas atitudes, relações e contextos nos quais se encontra inserido socialmente. Jamais se contentando com o “porque sim” estabelecido, mas, sempre de forma crítica e, principalmente, construtiva.
O que vivemos, hoje, na música, não é exclusivo, apenas, dessa atividade, mas universal. As dificuldades, desencontros, dilemas e problemas são comuns a diversas profissões, porque não se originam das especificidades técnicas, mas, da forma como o ser humano lida com as relações profissionais e interpessoais.
Apesar de semelhantes, não somos iguais e, por isso, temos necessidades, gostos e opiniões diferentes. O que agrada a um, incomoda a outro e, de uma forma geral, a falta de flexibilidade necessária para aceitar, respeitar e conviver com opniões diferentes das que consideramos “certas” é a base dos nossos conflitos.
Há mais de dois milênios, na Grécia antiga, pensadores já discutiam os limites das liberdades, direitos e deveres, tentando chegar a um entendimento sobre a conduta de cada cidadão, pessoal e coletivamente. Tentando compreender a melhor forma de agir em suas relações pessoais e, por consequência, profissionais.
A isso, deram o nome de Ética. Obviamente, como as culturas são muito complexas e diferentes, é possível se observar variações em suas aplicações, mas nunca em seu conceito básico. Apesar de sua interpretação poder mudar, ela visa sempre a melhor forma, para todos, de se proceder em qualquer situação.
Diante disso, podemos traçar um paralelo interessante entre os problemas que vivemos nos meios profissionais, compreendendo que estes advém dos econômicos, sociais e pessoais. A música não vive, isoladamente, uma fase ruim, mas, o ser humano, praticamente de todo o globo, vive uma crise moral e ética.
Nem sempre, na história, o mercado foi nocivo. Já houve um tempo em que se trocava mercadorias que eram de interesse mútuo e, quando não eram, havia a moeda, que servia como “vale”, permitindo ao portador, trocá-la por algo de seu interesse. Obviamente, já haviam as pessoas que em vez de produzir, usavam seu tempo buscando formas de enganar outros mercadores ou driblar as regras para benefício próprio. Assim, se estabelecia o antiético e a generalização.
Hoje, em pleno 2018, vejo, crianças e adultos, inflacionando figurinhas da copa do mundo, vendendo mais caro ou trocando uma por dez. O ser humano consegue perceber o interesse alheio e tirar vantagem disso, não sei se por obra da FIFA, da própria editora ou por má índole, aplicando-lhes as “maravilhas” do mercado.
A escassez de algo, gera grande procura e, consequentemente, faz com que pessoas mais abastadas paguem mais caro, na intenção de garantir sua obtenção. Isso faz parte do antigo mercado. Porém, o novo mercado, que já estudou o antigo, cria a escassez para aumentar o preço e a procura por seu produto.
Quem acaba de entrar no mercado de trabalho, considera “regra natural” a obsolescência programada e a atualização seletiva, aplicam-nas sem dó, tornando o mundo globalizado cada vez mais predatório e distante do utópico planeta, onde haveria serviço de qualidade, feito com prazer e igualdade de oportunidades.
Na música, esta lavagem cerebral nos leva a ouvir apenas o que está na moda, afinal se não fosse bom, não estaria. Mas é bom questionar se é considerada ruim por estar na moda, ser comercial, tocar na rádio ou na TV. E é claro que a resposta será não. É preciso cuidado para que a crítica não se assemelhe a uma inveja barata.
Desde que exista um artista que, genuinamente, se propõe a fazer sua arte e um público que o prestigie, todo juízo de valor sobre ela é um ônus, exclusivo, de quem julga. O problema, não é sua existência, mas o espaço ocupado por ela, que não permite à outra, sequer, ter a oportunidade de ser mostrada.
Existem distorções nos três níveis: em relação ao mercado, essa exclusividade, cria uma imagem distorcida de que todos no planeta amam apenas uma determinada coisa. O que é desproporcional a quantidade e variedade de coisas que existem no mundo, somos 8 bilhões de pessoas e é saudável que não tenhamos o mesmo gosto, certo?
Em relação ao público, a distorção acontece quando ele, apesar de achar tudo ruim, consome o que não gosta e não se identifica, tal como acontece com as drogas, que são horríveis na mão dos bandidos, geram dinheiro sujo, corrupção e guerra, no entanto, chegam às mão de quase todos os nossos amigos.
Em relação ao artista, quando ele deixa de mostrar sua verdade, com o objetivo, exclusivo, de agradar e lucrar, existe outra distorção. Fazer para agradar é estar um passo atrás de quem agrada espontaneamente.
A verdade da arte é, em meio a tantas verdades, um ponto de vista, através do qual o artista prende e toca o público, que, por sua vez, traz sua verdade e ganha a oportunidade de enxergar, sob novo prisma, permitindo-lhe questionar suas certezas e evoluir, amadurecendo.
Para o infinito e além! Até a próxima!
Creio que qualquer pessoa deva, ao menos tentar, desenvolver questionamentos sobre seu lugar, suas atitudes, relações e contextos nos quais se encontra inserido socialmente. Jamais se contentando com o “porque sim” estabelecido, mas, sempre de forma crítica e, principalmente, construtiva.
O que vivemos, hoje, na música, não é exclusivo, apenas, dessa atividade, mas universal. As dificuldades, desencontros, dilemas e problemas são comuns a diversas profissões, porque não se originam das especificidades técnicas, mas, da forma como o ser humano lida com as relações profissionais e interpessoais.
Apesar de semelhantes, não somos iguais e, por isso, temos necessidades, gostos e opiniões diferentes. O que agrada a um, incomoda a outro e, de uma forma geral, a falta de flexibilidade necessária para aceitar, respeitar e conviver com opniões diferentes das que consideramos “certas” é a base dos nossos conflitos.
Há mais de dois milênios, na Grécia antiga, pensadores já discutiam os limites das liberdades, direitos e deveres, tentando chegar a um entendimento sobre a conduta de cada cidadão, pessoal e coletivamente. Tentando compreender a melhor forma de agir em suas relações pessoais e, por consequência, profissionais.
A isso, deram o nome de Ética. Obviamente, como as culturas são muito complexas e diferentes, é possível se observar variações em suas aplicações, mas nunca em seu conceito básico. Apesar de sua interpretação poder mudar, ela visa sempre a melhor forma, para todos, de se proceder em qualquer situação.
Diante disso, podemos traçar um paralelo interessante entre os problemas que vivemos nos meios profissionais, compreendendo que estes advém dos econômicos, sociais e pessoais. A música não vive, isoladamente, uma fase ruim, mas, o ser humano, praticamente de todo o globo, vive uma crise moral e ética.
Nem sempre, na história, o mercado foi nocivo. Já houve um tempo em que se trocava mercadorias que eram de interesse mútuo e, quando não eram, havia a moeda, que servia como “vale”, permitindo ao portador, trocá-la por algo de seu interesse. Obviamente, já haviam as pessoas que em vez de produzir, usavam seu tempo buscando formas de enganar outros mercadores ou driblar as regras para benefício próprio. Assim, se estabelecia o antiético e a generalização.
Hoje, em pleno 2018, vejo, crianças e adultos, inflacionando figurinhas da copa do mundo, vendendo mais caro ou trocando uma por dez. O ser humano consegue perceber o interesse alheio e tirar vantagem disso, não sei se por obra da FIFA, da própria editora ou por má índole, aplicando-lhes as “maravilhas” do mercado.
A escassez de algo, gera grande procura e, consequentemente, faz com que pessoas mais abastadas paguem mais caro, na intenção de garantir sua obtenção. Isso faz parte do antigo mercado. Porém, o novo mercado, que já estudou o antigo, cria a escassez para aumentar o preço e a procura por seu produto.
Quem acaba de entrar no mercado de trabalho, considera “regra natural” a obsolescência programada e a atualização seletiva, aplicam-nas sem dó, tornando o mundo globalizado cada vez mais predatório e distante do utópico planeta, onde haveria serviço de qualidade, feito com prazer e igualdade de oportunidades.
Na música, esta lavagem cerebral nos leva a ouvir apenas o que está na moda, afinal se não fosse bom, não estaria. Mas é bom questionar se é considerada ruim por estar na moda, ser comercial, tocar na rádio ou na TV. E é claro que a resposta será não. É preciso cuidado para que a crítica não se assemelhe a uma inveja barata.
Desde que exista um artista que, genuinamente, se propõe a fazer sua arte e um público que o prestigie, todo juízo de valor sobre ela é um ônus, exclusivo, de quem julga. O problema, não é sua existência, mas o espaço ocupado por ela, que não permite à outra, sequer, ter a oportunidade de ser mostrada.
Existem distorções nos três níveis: em relação ao mercado, essa exclusividade, cria uma imagem distorcida de que todos no planeta amam apenas uma determinada coisa. O que é desproporcional a quantidade e variedade de coisas que existem no mundo, somos 8 bilhões de pessoas e é saudável que não tenhamos o mesmo gosto, certo?
Em relação ao público, a distorção acontece quando ele, apesar de achar tudo ruim, consome o que não gosta e não se identifica, tal como acontece com as drogas, que são horríveis na mão dos bandidos, geram dinheiro sujo, corrupção e guerra, no entanto, chegam às mão de quase todos os nossos amigos.
Em relação ao artista, quando ele deixa de mostrar sua verdade, com o objetivo, exclusivo, de agradar e lucrar, existe outra distorção. Fazer para agradar é estar um passo atrás de quem agrada espontaneamente.
A verdade da arte é, em meio a tantas verdades, um ponto de vista, através do qual o artista prende e toca o público, que, por sua vez, traz sua verdade e ganha a oportunidade de enxergar, sob novo prisma, permitindo-lhe questionar suas certezas e evoluir, amadurecendo.
Para o infinito e além! Até a próxima!
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Coluna de Abril de 2018 para o Jornal Portal
Numa noite de domingo, chegando com a família de uma roda de samba em que toquei, ouvimos, ao saltar do carro, um miado, fininho, vindo de dentro da garagem. Procuramos um pouco, até chegarmos a uma caminhonete, que trazia em suas entranhas um filhotinho cinzento de gato.
Ele chamava pela mãe e não vinha, até nós, de jeito nenhum. Estava entre a caçamba e o chassis, quando tentávamos pegá-lo, ele fugia. Se equilibrava muito bem. Andando rápido entre as peças da suspensão e outras que ficam por baixo do carro. Montamos um verdadeiro esquema de salvamento, e nada.
No dia seguinte, minha filha voltou ao local, junto com outras crianças do prédio e conseguiram resgatar o bichano. Como prêmio, pela bravura ou pela sujeira da roupa e dos joelhos, ela foi agraciada, pelo dono do carro, com o pequeno felino. Que havia viajado, naquelas condições, de seu sítio em Araruama até o Grajaú.
Como o bichinho não parava de miar, o apelidamos de Tagarela. Quando criança, eu havia tido um siamês, chamado Príncipe. Agora, há cinco meses, voltei a conviver com esse animal fantástico. Quando chegou era tão pequeno que ainda andava desengonçado, mas, hoje, é um ninja disfarçado de vira-latas.
Essa sagacidade e curiosidade que o levam a, literalmente, subir pelas paredes ou entrar num sofá que não tem entrada, entre outras peripécias, me levaram a traçar mais um paralelo, agora entre gatos e gênios. Vivo procurando a melhor analogia, para quando começa aquela discussão sobre o “dom” - the gift.
Todo gato é ninja. Uns mais, outros menos, alguns perderam o condicionamento por causa das condições em que vivem. São produtos do meio, como Vygotsky gostaria que eu afirmasse. Porém, há um aparato genético que lhes dá a condição de ser ninja - a todos - como nos diria Piaget. As exceções existem, claro: Problemas genéticos, congênitos ou de enfermidades, durante a vida.
O gênio, quando nasce, é uma criança normal, um livro em branco. Cheio de potencialidades, como todos nós. A diferença, é que ele, em especial, entra em contato, muito precocemente, com algo que tem muita afinidade, gerando um circulo virtuoso de interesse, crescimento e saciedade, que chamamos de dom.
O dom, essa facilidade perceptiva e/ou motora, fruto daquela afinidade que se desenvolve e amadurece, faz com que este indivíduo esteja em franco contato com seu instinto, numa espiral constante de ascensão, enquanto viver ou lhe for permitido, assim como a fauna na natureza. Se incentivada, esta criança pode, até, sobrepujar tudo o que estamos habituados a ver.
À soma das condições biológicas e contextuais de sua época, cultura e família, dá-se o nome de vocação. É ela que permite ao gênio, apesar de toda facilidade e inclinação para o assunto, sentir-se profundamente feliz e, também, ansioso para frequentar a esperada aula, às sete da manhã de um domingo chuvoso.
A menina prodígio, Alma Deutscher, desde pequena se interessa pela música, pede ao pai que a ensine, estuda sem que ninguém peça, movida, apenas, pela sua própria vontade, algo que vem de dentro. É a sua brincadeira preferida, onde transborda realização, afeto e felicidade.
A linda inglesinha que, em Fevereiro, acabou de fazer 13 anos, toca piano desde os três e violino desde os quatro, compõe sinfonias, óperas e se apresenta em concertos profissionais. Apesar de ser considerada a reencarnação de Mozart, diz: “Eu não quero ser um segundo Mozart, quero ser a primeira Alma.”
Ela tem razão! Seria uma injustiça com o quanto ela estuda e trabalha, dizer que ela é boa porque nasceu com um dom ou porque é reencarnação de alguém. Essa visão que nos rodeia, é reducionista demais e tira o mérito de quem, apesar de ter vocação, não optou por gozar, sem antes trabalhar para merecer.
Apesar de conseguir fazer qualquer coisa, pois, o ser humano é capaz e, também, programado para aprender, não ter a sensação de realização, tem sido uma das grandes frustrações da atualidade. Uns tendem à música, outros à natação ou história e, assim, cada um deveria se perceber parte de uma função.
Nossa busca deve ser por esta sintonia. E, para isso, precisamos ouvir nossos verdadeiros desejos e respeitá-los, independente do que, socialmente, é encorajado. Antes, teríamos que ter um desempenho acima da média, para sobreviver à natureza, hoje, vivendo em sociedade, permanecemos na angústia de sobreviver, mas, a outros de nós e a nós mesmos.
Como disse o sábio Cherokee: “Todos temos, no peito, dois lobos, o que alimentamos com mais frequência, é o que se torna mais forte.”
Espero que todos tenham tido uma boa Páscoa!
Até a próxima!
Ele chamava pela mãe e não vinha, até nós, de jeito nenhum. Estava entre a caçamba e o chassis, quando tentávamos pegá-lo, ele fugia. Se equilibrava muito bem. Andando rápido entre as peças da suspensão e outras que ficam por baixo do carro. Montamos um verdadeiro esquema de salvamento, e nada.
No dia seguinte, minha filha voltou ao local, junto com outras crianças do prédio e conseguiram resgatar o bichano. Como prêmio, pela bravura ou pela sujeira da roupa e dos joelhos, ela foi agraciada, pelo dono do carro, com o pequeno felino. Que havia viajado, naquelas condições, de seu sítio em Araruama até o Grajaú.
Como o bichinho não parava de miar, o apelidamos de Tagarela. Quando criança, eu havia tido um siamês, chamado Príncipe. Agora, há cinco meses, voltei a conviver com esse animal fantástico. Quando chegou era tão pequeno que ainda andava desengonçado, mas, hoje, é um ninja disfarçado de vira-latas.
Essa sagacidade e curiosidade que o levam a, literalmente, subir pelas paredes ou entrar num sofá que não tem entrada, entre outras peripécias, me levaram a traçar mais um paralelo, agora entre gatos e gênios. Vivo procurando a melhor analogia, para quando começa aquela discussão sobre o “dom” - the gift.
Todo gato é ninja. Uns mais, outros menos, alguns perderam o condicionamento por causa das condições em que vivem. São produtos do meio, como Vygotsky gostaria que eu afirmasse. Porém, há um aparato genético que lhes dá a condição de ser ninja - a todos - como nos diria Piaget. As exceções existem, claro: Problemas genéticos, congênitos ou de enfermidades, durante a vida.
O gênio, quando nasce, é uma criança normal, um livro em branco. Cheio de potencialidades, como todos nós. A diferença, é que ele, em especial, entra em contato, muito precocemente, com algo que tem muita afinidade, gerando um circulo virtuoso de interesse, crescimento e saciedade, que chamamos de dom.
O dom, essa facilidade perceptiva e/ou motora, fruto daquela afinidade que se desenvolve e amadurece, faz com que este indivíduo esteja em franco contato com seu instinto, numa espiral constante de ascensão, enquanto viver ou lhe for permitido, assim como a fauna na natureza. Se incentivada, esta criança pode, até, sobrepujar tudo o que estamos habituados a ver.
À soma das condições biológicas e contextuais de sua época, cultura e família, dá-se o nome de vocação. É ela que permite ao gênio, apesar de toda facilidade e inclinação para o assunto, sentir-se profundamente feliz e, também, ansioso para frequentar a esperada aula, às sete da manhã de um domingo chuvoso.
A menina prodígio, Alma Deutscher, desde pequena se interessa pela música, pede ao pai que a ensine, estuda sem que ninguém peça, movida, apenas, pela sua própria vontade, algo que vem de dentro. É a sua brincadeira preferida, onde transborda realização, afeto e felicidade.
A linda inglesinha que, em Fevereiro, acabou de fazer 13 anos, toca piano desde os três e violino desde os quatro, compõe sinfonias, óperas e se apresenta em concertos profissionais. Apesar de ser considerada a reencarnação de Mozart, diz: “Eu não quero ser um segundo Mozart, quero ser a primeira Alma.”
Ela tem razão! Seria uma injustiça com o quanto ela estuda e trabalha, dizer que ela é boa porque nasceu com um dom ou porque é reencarnação de alguém. Essa visão que nos rodeia, é reducionista demais e tira o mérito de quem, apesar de ter vocação, não optou por gozar, sem antes trabalhar para merecer.
Apesar de conseguir fazer qualquer coisa, pois, o ser humano é capaz e, também, programado para aprender, não ter a sensação de realização, tem sido uma das grandes frustrações da atualidade. Uns tendem à música, outros à natação ou história e, assim, cada um deveria se perceber parte de uma função.
Nossa busca deve ser por esta sintonia. E, para isso, precisamos ouvir nossos verdadeiros desejos e respeitá-los, independente do que, socialmente, é encorajado. Antes, teríamos que ter um desempenho acima da média, para sobreviver à natureza, hoje, vivendo em sociedade, permanecemos na angústia de sobreviver, mas, a outros de nós e a nós mesmos.
Como disse o sábio Cherokee: “Todos temos, no peito, dois lobos, o que alimentamos com mais frequência, é o que se torna mais forte.”
Espero que todos tenham tido uma boa Páscoa!
Até a próxima!
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